Setor quer ampliar certificação nas prateleiras e monitorar lotes em todo o país; ABIC já realizou cerca de 170 mil análises desde 1979.
Indústria aumenta cerco ao café adulterado
O mercado brasileiro de café deve ganhar uma fiscalização mais próxima das prateleiras dos supermercados para tentar impedir a venda de produtos adulterados, impuros ou que possam confundir o consumidor.
A indústria defende uma maior integração entre fabricantes, supermercados e órgãos públicos, além da ampliação do número de produtos certificados disponíveis no varejo. Entre as propostas está a criação de uma espécie de “gôndola certificada”, reunindo cafés que passaram por processos de análise e possuem selo de qualidade.
A discussão ocorreu durante o seminário “Defesa do consumidor de café: o papel das entidades públicas e privadas”, realizado em São Paulo e que reuniu representantes da indústria, do varejo e de órgãos públicos.
Cerca de 10% dos cafés ainda precisam avançar em certificação
Segundo a Associação Paulista de Supermercados (APAS), aproximadamente 10% dos cafés comercializados no varejo ainda precisam avançar nos processos de análise e certificação.
A avaliação do setor é que uma maior presença de produtos certificados nas lojas poderia funcionar como uma camada adicional de proteção para o consumidor e dificultar a entrada de cafés irregulares no mercado.
A proposta também é fazer com que a certificação tenha influência na própria organização das prateleiras, e não fique restrita à informação apresentada na embalagem.
ABIC já analisou 170 mil amostras
A Associação Brasileira da Indústria de Café (ABIC) mantém há décadas programas de monitoramento e certificação. Desde 1979, a entidade já realizou aproximadamente 170 mil análises de café.
Atualmente, são cerca de 5 mil análises de lotes por ano. A entidade também vem mapeando produtos comercializados em diferentes regiões brasileiras e pretende ampliar esse trabalho.
O objetivo é identificar irregularidades e aumentar a quantidade de cafés certificados disponíveis para os consumidores.
Mercado movimenta milhares de toneladas
O tamanho do consumo ajuda a explicar a preocupação da indústria. De acordo com dados apresentados pela APAS, o varejo brasileiro comercializa aproximadamente 80 mil toneladas por ano de café tradicional em embalagens de 500 gramas.
Para representantes do setor, o café já apresenta um nível de organização em torno de certificações e selos superior ao observado em algumas outras categorias de alimentos.
Mesmo assim, indústria e supermercados entendem que ainda existe espaço para ampliar a fiscalização e a participação de produtos certificados.
O que é o chamado “café fake”?
A preocupação ganhou força após o surgimento de produtos comercializados como alternativas mais baratas ao café tradicional. Alguns deles podem utilizar matérias-primas como folhas, cascas e outras partes vegetais, sem necessariamente conter grãos de café.
A ABIC já alertou que produtos apresentados como “pó para preparo de bebida tipo ou sabor café” não devem ser confundidos com café torrado e moído. A entidade também afirma que misturas com resíduos agrícolas, matérias estranhas ou partes da planta do café que não sejam a semente são proibidas pela legislação sanitária e agropecuária.
Em 2025, a Anvisa chegou a determinar o recolhimento e a proibição da comercialização de produtos de três marcas classificados como irregulares após análises apontarem problemas na fabricação.
Fiscalização ainda enfrenta dificuldades
Para a indústria, um dos principais obstáculos é a fragmentação da fiscalização pública. Amostras coletadas em diferentes regiões podem passar por estruturas distintas, dificultando a concentração das informações e a identificação rápida de produtos suspeitos.
Outro problema apontado é o intervalo entre a descoberta de uma irregularidade e a aplicação das medidas necessárias para retirar o produto do mercado.
A defesa do setor é por uma atuação mais integrada entre coleta de amostras, análise laboratorial, compartilhamento de informações e fiscalização.
Selo pode ajudar consumidor na hora da compra
Além da fiscalização, a indústria aposta na certificação como uma ferramenta para facilitar a escolha do consumidor.
Os programas da ABIC avaliam aspectos como a pureza do produto e suas características de qualidade. A certificação inclui análises laboratoriais, avaliação sensorial e auditorias dos processos das empresas, além de verificações periódicas nos pontos de venda.
Por isso, a orientação do setor é que o consumidor observe atentamente a embalagem, a procedência e as informações do produto antes da compra, principalmente diante de ofertas com preços muito abaixo dos praticados normalmente.





