Brasileiros são atraídos por falsas vagas e acabam enviados para guerra na Ucrânia, diz Anistia
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Brasileiros são atraídos por falsas vagas e acabam enviados para guerra na Ucrânia, diz Anistia

11/09/2026 | 16:20 Por Redação MZ

Anistia Internacional afirma que brasileiros, colombianos, cubanos e cidadãos de outros países foram enganados ou coagidos a ingressar nas Forças Armadas russas.

Falsas oportunidades de trabalho terminariam no campo de batalha

Estrangeiros de diferentes países estariam sendo atraídos para a Rússia com promessas de empregos civis e, depois, enviados para combater na guerra contra a Ucrânia. A denúncia foi apresentada pela Anistia Internacional em um relatório divulgado nesta quinta-feira (10).

A organização afirma ter identificado um sistema que utiliza fraude, coerção e exploração da vulnerabilidade econômica de migrantes e pessoas em situação precária. Entre os países de origem dos recrutados estão Brasil, Colômbia, Cuba, Egito, Serra Leoa, Somália, Sri Lanka e África do Sul.

Segundo a entidade, anúncios falsos publicados na internet oferecem vagas em áreas como segurança, logística, construção, tecnologia da informação e outras atividades civis. Em alguns casos, também seriam prometidos salários elevados e facilidades para obter a cidadania russa.

Depois de chegarem ao país, porém, os trabalhadores descobririam que seriam incorporados às Forças Armadas.

Brasileiros aparecem entre os casos investigados

A investigação foi baseada em entrevistas realizadas entre 2024 e 2026 com estrangeiros mantidos como prisioneiros de guerra na Ucrânia, além de conversas com familiares, advogados, ativistas e pessoas que ainda servem nas forças russas.

Entre os brasileiros entrevistados está um profissional de tecnologia que, segundo a Anistia, acreditava estar assinando um contrato para trabalhar na área de informática na Rússia. Depois de perceber que havia sido recrutado para o serviço militar, ele teria tentado deixar o local, mas recebeu ameaças.

A organização também relata que brasileiros e cidadãos do Sri Lanka tiveram passaportes e celulares confiscados durante o treinamento ou antes de serem enviados ao front.

Recrutados seriam enviados à guerra após pouco treinamento

De acordo com os relatos reunidos pela Anistia, muitos estrangeiros não tinham experiência militar. Mesmo assim, alguns teriam sido enviados para áreas de combate depois de aproximadamente duas semanas de treinamento.

Além da preparação considerada insuficiente, os entrevistados mencionaram falta de equipamentos e dificuldades para se comunicar com os superiores por causa das barreiras linguísticas.

A entidade afirma que a prioridade seria ampliar rapidamente o número de soldados disponíveis para o conflito, sem atenção adequada à preparação ou à segurança dos estrangeiros recrutados.

Passaportes seriam confiscados após chegada à Rússia

Um dos métodos apontados pela organização envolve a retenção de documentos e a restrição da liberdade de circulação.

Segundo os relatos, depois de assinarem contratos militares — muitas vezes escritos em idiomas que não compreendiam — os estrangeiros seriam impedidos de deixar os locais onde estavam alojados.

A Anistia também identificou casos de pessoas em situação migratória irregular que teriam recebido propostas de alistamento como alternativa à prisão ou deportação.

Em outros episódios, estrangeiros que estavam presos por acusações criminais teriam recebido a possibilidade de assinar contratos militares em vez de cumprir ou terminar de cumprir suas penas.

Promessas de emprego e cidadania

As ofertas de trabalho seriam uma das principais portas de entrada utilizadas pelos recrutadores.

Um dos casos citados pela Anistia envolve um sul-africano que se candidatou a uma vaga de motorista. Ele teria recebido instruções para viajar até Moscou e buscar um caminhão que seria levado à Polônia.

Ao chegar à capital russa, segundo o relato apresentado à organização, seus pertences foram retirados e ele foi informado de que não viajaria para a Polônia, mas seria transformado em soldado.

Além de salários e bônus pelo alistamento, a possibilidade de obter cidadania russa também teria sido usada como incentivo.

Anistia classifica casos como possível tráfico de pessoas

A organização considera que os métodos identificados podem configurar tráfico de pessoas, conforme a definição estabelecida pelo Protocolo de Palermo, das Nações Unidas.

A entidade aponta a combinação de falsas promessas, exploração de vulnerabilidades, coerção, restrição de liberdade e envio para situações de exploração como elementos que sustentariam essa avaliação.

A secretária-geral da Anistia Internacional, Agnès Callamard, afirmou que os estrangeiros vulneráveis estariam sendo utilizados como “bucha de canhão” no conflito.

A entidade pede que os países cujos cidadãos estão sendo alvo desse tipo de recrutamento adotem medidas preventivas, incluindo alertas públicos sobre ofertas de trabalho suspeitas relacionadas à Rússia.

Rússia já rejeitou acusações

As autoridades russas não se manifestaram publicamente sobre as novas acusações apresentadas pela Anistia Internacional.

Moscou já rejeitou anteriormente denúncias de que estrangeiros seriam obrigados a ingressar nas Forças Armadas russas.

A Anistia também informou que as autoridades russas proibiram oficialmente sua atuação no país em maio de 2025, o que impede a organização de realizar investigações abertas em território russo.

A entidade também pediu que a Ucrânia e os governos dos países afetados investiguem os casos e preservem provas para que possíveis responsáveis pelo recrutamento sejam responsabilizados.