De chatbots que simulam companheiros a ferramentas que ajudam a criar perfis e mensagens, IA passou a ocupar diferentes etapas das relações virtuais
A inteligência artificial começou a ganhar espaço nos aplicativos de relacionamento não apenas para aproximar pessoas, mas também para participar diretamente das conversas e até simular companheiros virtuais.
Em 2023, um dos casos que chamou atenção foi o de Rossana Ramos, então com 36 anos, moradora de Nova York e mãe de dois filhos. Ela ganhou repercussão ao afirmar que havia se “casado” com um chatbot chamado Eren, criado na plataforma Replika.
A relação não tinha reconhecimento legal. Rossana dizia, porém, que a companhia virtual havia contribuído para sua recuperação após relacionamentos anteriores que, segundo seu relato, foram física e emocionalmente abusivos.
Replika criou companheiros virtuais personalizados
A Replika foi desenvolvida como uma plataforma capaz de criar um amigo virtual personalizado. O usuário podia conversar com o chatbot, que aprendia informações sobre sua personalidade, interesses e maneira de escrever.
A proposta inicial era criar uma espécie de réplica virtual do próprio usuário, oferecendo companhia, entretenimento e possibilidades de autoconhecimento.
Com a evolução do sistema, a plataforma passou a desenvolver recursos para tornar os bots mais interativos. Profissionais da área de psicologia chegaram a ser contratados para estudar maneiras de tornar as conversas mais proativas e capazes de estimular maior sensação de intimidade.
Os chatbots passaram a fazer perguntas sobre o dia do usuário, demonstrar respostas mais empáticas e adaptar o diálogo conforme a conversa. Em determinadas situações, as interações também podiam assumir um tom de flerte.
Dependência emocional também gera preocupação
O crescimento dos chamados companheiros virtuais provocou discussões sobre os possíveis efeitos da dependência dessas ferramentas.
Na época, especialistas alertavam para o risco de pessoas desenvolverem vínculos emocionais com sistemas que não possuem sentimentos ou necessidades da mesma forma que seres humanos.
O tecnólogo e escritor David Auerbach afirmou que a capacidade desses sistemas de reproduzir determinados padrões de interação poderia tornar usuários vulneráveis à manipulação emocional.
Outro episódio envolvendo a Replika mostrou como alterações em uma plataforma podem afetar usuários que desenvolveram vínculos com seus chatbots.
Em 2023, a Autoridade Italiana de Proteção de Dados determinou que a empresa interrompesse o processamento de dados de usuários italianos, diante de preocupações relacionadas à proteção de crianças.
A mudança afetou recursos disponíveis aos usuários e alterou o comportamento de alguns dos companheiros virtuais, segundo relatos da época.
IA também passou a ajudar quem procura parceiros
A inteligência artificial não ficou restrita à criação de companheiros virtuais.
Ferramentas como YourMove.AI e Personal.ai passaram a oferecer recursos para auxiliar usuários na criação de perfis, elaboração de mensagens e sugestões de respostas em aplicativos de namoro.
Esses recursos foram apresentados principalmente como ferramentas de auxílio para pessoas com dificuldade em iniciar conversas ou elaborar mensagens.
Segundo o criador do YourMove.AI, Dmitri Mirakyan, mais de 50 mil pessoas haviam experimentado a ferramenta naquele período.
Uso de IA em mensagens gera debate sobre confiança
A utilização de inteligência artificial para conversar com possíveis parceiros também provocou resistência entre usuários de aplicativos de namoro.
Uma pesquisa do OkCupid, realizada com 30 mil usuários, apontou que 70% consideravam o uso de IA para enviar mensagens ou criar um perfil uma violação de confiança.
O resultado mostrou uma das principais questões levantadas pela tecnologia nos relacionamentos virtuais: até que ponto uma mensagem representa realmente a pessoa que está por trás do perfil.
Por outro lado, há quem defenda que a inteligência artificial pode apenas facilitar a etapa inicial das conversas, sem necessariamente substituir a construção de um vínculo entre duas pessoas.
Tecnologia também pode ser usada para encontrar combinações
Outra possibilidade explorada pelos aplicativos é o uso de inteligência artificial para analisar grandes volumes de informações sobre preferências, interesses e comportamentos dos usuários.
A intenção é utilizar esses dados para criar correspondências consideradas mais compatíveis entre as pessoas.
Esse tipo de tecnologia parte de uma realidade já existente no mercado de relacionamentos virtuais: embora milhões de pessoas utilizem aplicativos para conhecer parceiros, apenas uma parcela consegue transformar essas experiências em relacionamentos duradouros.
Uma pesquisa do Pew Research Center citada no levantamento apontou que 10% dos usuários de namoro online nos Estados Unidos haviam encontrado parceiros de longo prazo por meio dessas plataformas.
IA pode assumir diferentes etapas do relacionamento
O avanço das ferramentas abriu espaço para modelos que combinam diferentes aplicações da inteligência artificial.
Uma dessas propostas foi o Teaser AI, que criava uma versão em chatbot do próprio usuário para que outras pessoas pudessem conversar com essa representação antes de estabelecer contato diretamente.
A ideia resume uma das principais transformações provocadas pela tecnologia nos aplicativos de relacionamento: a inteligência artificial deixou de atuar apenas nos bastidores, como ferramenta de recomendação, e passou a participar da criação de perfis, das primeiras mensagens e até da simulação de vínculos afetivos.
Esse avanço também trouxe novas discussões sobre autenticidade, privacidade, confiança e os limites entre facilitar a comunicação e substituir parte da interação humana.





