Veto da União Europeia não deve baratear carne no Brasil; preços podem subir até o fim do ano
Economia

Veto da União Europeia não deve baratear carne no Brasil; preços podem subir até o fim do ano

03/09/2026 | 11:29 Por Redacao

A suspensão das importações de carne bovina brasileira pela União Europeia, que começa nesta quinta-feira (3), não deve provocar queda nos preços da carne no Brasil. Apesar da perda do mercado europeu, especialistas avaliam que o volume exportado para o bloco é pequeno para gerar excesso de oferta no mercado interno.

Em 2025, a União Europeia respondeu por apenas 3,7% do volume de carne bovina exportado pelo Brasil e por 5,8% do valor das vendas. Entre os cortes enviados ao bloco estão filé mignon, contrafilé, alcatra, coxão mole e filé de costela.

Pelo contrário, a expectativa é de alta dos preços até o final do ano, devido principalmente à menor oferta de bois para abate e à retomada das exportações para a China.

Exportações para a China devem pressionar o mercado

A China estabeleceu para 2026 uma cota de 1,1 milhão de toneladas de carne bovina brasileira. Dentro desse limite, a tarifa é de 12%. Para volumes que ultrapassem a cota, é aplicada uma tarifa adicional de 55%.

O cenário provocou uma forte corrida das exportações brasileiras até junho. Os embarques diminuíram a partir de julho, mas a expectativa é de retomada a partir de outubro, quando os frigoríficos devem intensificar os abates destinados ao mercado chinês.

Como o transporte até a China leva entre 45 e 60 dias, parte da carne embarcada no fim do ano deverá chegar ao país asiático apenas em 2027.

Com mais carne sendo direcionada ao mercado externo e menos animais disponíveis para abate no Brasil, a tendência é de pressão sobre os preços internos.

A chamada baixa do ciclo pecuário, período caracterizado pela redução da quantidade de bovinos disponíveis para abate, também contribui para esse cenário.

Carne já acumula alta

Os preços das carnes acumulam alta de 8,53% em 12 meses, segundo os dados da prévia da inflação de agosto.

Entre os cortes nobres, os aumentos foram ainda maiores:

  • Filé mignon: 15,2%
  • Contrafilé: 11,5%
  • Alcatra: 9,31%
  • Coxão mole: 10%

A avaliação é que nem mesmo os cortes mais valorizados devem ficar mais baratos com o embargo europeu.

O que muda com o embargo da União Europeia

Além da carne bovina, a suspensão das importações brasileiras atinge frango, carne suína, mel, pescados e ovos. A medida vale para os 27 países da União Europeia.

O embargo foi anunciado após o bloco retirar o Brasil da lista de países que cumprem suas regras sobre o uso de antimicrobianos na pecuária. A UE afirma que os controles brasileiros sobre essas substâncias são insuficientes.

A decisão, porém, não foi motivada por irregularidades encontradas na carne brasileira.

Nesta semana, técnicos europeus realizam uma auditoria no Brasil nas cadeias de produção de frango e mel. A inspeção deve terminar até sexta-feira (4), mas o resultado ainda será analisado pela União Europeia, processo que pode levar cerca de dois meses.

Brasil tenta reverter a decisão

O governo brasileiro vem negociando com a União Europeia desde o anúncio do embargo. Em abril, foram proibidos alguns antimicrobianos, como avoparcina, virginiamicina e bacitracina.

Em junho, o Brasil apresentou um novo protocolo de controle que prevê o rastreamento dos animais desde o nascimento até o abate, para comprovar que as substâncias proibidas não foram utilizadas.

Segundo a Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes, todas as empresas associadas e habilitadas a exportar para a UE já aderiram ao protocolo.

Mesmo com uma eventual reversão do embargo, a carne bovina brasileira ainda poderia levar pelo menos dois anos para voltar ao mercado europeu, devido ao tempo necessário para que os animais cumpram as novas exigências durante todo o ciclo de produção.

No caso do frango, o período é muito menor: cerca de 45 dias entre o nascimento e o abate.

Setor busca novos mercados

Representantes do agronegócio demonstram preocupação com a suspensão, principalmente porque a União Europeia é considerada um mercado estratégico para cortes nobres e de maior valor agregado.

No setor de frango, existe expectativa de retomada das vendas ainda neste ano, dependendo do resultado da auditoria. Caso o bloqueio permaneça, a produção poderá ser direcionada ao mercado interno e aos cerca de 150 países que já compram produtos brasileiros.

A expectativa, portanto, é que o embargo europeu tenha impacto limitado sobre a oferta de carne no mercado brasileiro. Com a retomada das exportações para a China e a menor disponibilidade de bois para abate, a tendência é de preços firmes ou em alta até o final de 2026.