Operação Umbra II investiga organização criminosa que teria estabelecido a troca de um grama de cocaína por oito assinaturas. Sete mandados de prisão preventiva e oito de busca foram cumpridos no Paraná e em São Paulo.
O Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), do Ministério Público do Paraná (MPPR), deflagrou nesta quarta-feira, 28 de outubro de 2026, a segunda fase da Operação Umbra, que investiga a atuação de uma facção criminosa no Norte do Paraná e em outros estados brasileiros.
A operação, denominada Umbra II, envolveu o cumprimento de 15 mandados judiciais, sendo sete de prisão preventiva e oito de busca e apreensão.
Um dos principais pontos da investigação é a suspeita de que integrantes da organização distribuíam drogas em troca de assinaturas para um projeto de lei de iniciativa popular que pretendia flexibilizar as regras para visitas íntimas e conjugais em estabelecimentos prisionais.
Segundo o Ministério Público, registros apreendidos indicam que um grama de cocaína poderia ser trocado por oito assinaturas.
A investigação também apura tráfico de drogas, comércio ilegal de armas, atuação de lideranças criminosas dentro de presídios e possível envolvimento de integrantes da facção em um duplo homicídio.
Cocaína era usada para incentivar coleta de assinaturas, aponta investigação
De acordo com o Gaeco, a organização criminosa teria desenvolvido uma campanha para reunir assinaturas de apoio a uma proposta legislativa relacionada às regras de visitas íntimas e conjugais no sistema prisional.
A iniciativa era promovida em Londrina e região e, conforme os investigadores, tinha como objetivo pressionar o sistema penitenciário.
Mensagens analisadas pelo Ministério Público indicaram que a facção pretendia alcançar a marca de 290 mil assinaturas em todo o Brasil.
Para estimular a coleta, os integrantes do grupo teriam estabelecido um sistema de recompensas envolvendo a distribuição de entorpecentes.
Pessoas que apresentassem assinaturas coletadas receberiam porções de drogas fornecidas pelos responsáveis pelos pontos de venda.
Esses integrantes eram chamados internamente de “donos de quebradas”.
A prática teria recebido, dentro da organização, a denominação de “trabalho de revertimento”.
Um grama de cocaína equivalia a oito assinaturas
O Ministério Público identificou planilhas e registros que detalhavam a relação entre a quantidade de drogas disponibilizadas e o número de assinaturas obtidas.
Em um dos documentos analisados, a equivalência registrada era de oito assinaturas para cada grama de cocaína.
As anotações também apresentavam informações sobre a quantidade de entorpecentes destinada por cada ponto de comercialização.
Para os investigadores, esses elementos indicam que a coleta de assinaturas não era uma iniciativa isolada, mas uma atividade organizada dentro da estrutura da facção.
A apuração busca esclarecer a participação dos envolvidos e a extensão da campanha.
Operação cumpre mandados no Paraná e em São Paulo
A segunda fase da Operação Umbra foi conduzida pelo Núcleo Regional de Londrina do Gaeco.
As ordens judiciais foram autorizadas pelo Juízo das Garantias da 5ª Vara Criminal de Londrina.
As diligências ocorreram em seis municípios de dois estados.
No Paraná, as ações foram realizadas em Londrina, Cambé, Cascavel e Piraquara.
Em São Paulo, os mandados foram cumpridos em Avaré e Marília.
Além das prisões preventivas, a Justiça autorizou buscas pessoais e domiciliares, incluindo diligências em unidades prisionais onde alguns investigados estão recolhidos.
Os policiais e promotores buscaram materiais relacionados às atividades investigadas, como celulares, armas de fogo, drogas, dinheiro em espécie e documentos.
Dois irmãos comandariam estrutura criminosa no Norte do Paraná
As investigações apontam que a estrutura regional da facção seria comandada por dois irmãos, responsáveis por diferentes setores da organização.
Um deles ocuparia a função denominada “Geral da Região 43”, referência ao código de área telefônico DDD 43, que abrange municípios do Norte do Paraná.
Segundo o Gaeco, esse investigado seria responsável pela disciplina dos integrantes, pela transmissão de determinações da liderança nacional e pela autorização ou proibição de punições e transferências internas.
Ele também teria atribuições relacionadas à administração da estrutura regional.
O outro irmão ocuparia a posição de “Final 100% do Estado do Paraná”.
Conforme a investigação, sua função envolveria a supervisão financeira e operacional das atividades ilícitas no estado, além da coordenação do comércio de drogas a partir da zona sul de Londrina.
Facção teria tribunal do crime e negociava até fuzis
Além dos dois supostos líderes, o Gaeco identificou outros investigados que desempenhariam funções específicas na organização.
Entre as atividades atribuídas aos integrantes estão a contabilidade da facção, a administração de pontos de venda de drogas e a organização de mecanismos internos de punição.
A investigação também identificou suspeitas relacionadas à atuação do chamado “tribunal do crime”, utilizado por organizações criminosas para impor decisões e punições a integrantes ou desafetos.
Outro setor investigado envolve a negociação de armas de fogo de grosso calibre, incluindo fuzis.
De acordo com o Ministério Público, essas atividades fariam parte de uma estrutura hierarquizada, com divisão de responsabilidades entre os suspeitos.
Presos continuariam comandando crimes de dentro das penitenciárias
A investigação aponta que parte dos suspeitos já estava presa em unidades penitenciárias do Paraná e de São Paulo.
Mesmo privados de liberdade, eles supostamente continuavam exercendo funções de liderança e administração da organização criminosa.
Segundo o Gaeco, os investigados repassariam ordens, negociariam armamentos e administrariam o fluxo de drogas.
Para dificultar a identificação dos responsáveis pelas comunicações, os integrantes utilizariam linhas telefônicas registradas em nome de terceiros.
Essas informações motivaram a autorização de buscas também dentro de estabelecimentos prisionais.
Gaeco apura ligação com duplo homicídio que matou criança
Outro ponto investigado é a possível participação de dois integrantes da facção em um duplo homicídio ocorrido em 2024, em Rolândia, no Norte do Paraná.
Conforme a linha de investigação, o ataque teria sido praticado em nome da organização criminosa contra um homem apontado como integrante de um grupo rival.
Uma criança também morreu no episódio.
O material reunido pelo Gaeco indica possível envolvimento de dois investigados no crime.
Um dos suspeitos relacionados a essa apuração teria fugido para o Paraguai e é considerado foragido da Justiça.
A participação dos investigados no duplo homicídio ainda depende da apuração e dos procedimentos judiciais correspondentes.
Segunda fase amplia investigação iniciada em 2025
A Operação Umbra teve uma etapa anterior realizada em 15 de maio de 2025, quando o Gaeco cumpriu três mandados de busca e apreensão.
Na ocasião, a investigação tinha como foco um homem suspeito de liderar uma organização criminosa na região de Londrina.
Com o avanço das diligências, os investigadores reuniram novos elementos sobre a estrutura hierárquica da facção, a movimentação de drogas, o comércio de armas e as comunicações mantidas por integrantes presos.
Essas informações fundamentaram os pedidos judiciais que resultaram na deflagração da Operação Umbra II.
Investigados poderão responder por crimes relacionados ao tráfico e à organização criminosa
Segundo o Ministério Público, os suspeitos poderão responder por favorecimento ao domínio social estruturado e tráfico de drogas, conforme os fatos atribuídos a cada investigado.
A operação busca aprofundar a identificação das responsabilidades individuais e reunir provas sobre o funcionamento da organização criminosa.
Os mandados de prisão preventiva e de busca e apreensão foram autorizados judicialmente, mas as suspeitas ainda deverão ser analisadas no decorrer dos procedimentos legais.
O ponto de maior destaque da investigação é a suspeita de que a facção utilizava entorpecentes como recompensa pela coleta de assinaturas para uma proposta de alteração das regras de visitas íntimas em presídios, com meta de alcançar 290 mil apoio em todo o país.





