Alíquota da CBS foi aprovada pelo TCU e ainda depende de definição do Senado. Setor produtivo alerta para possíveis aumentos de custos, prazos apertados e dificuldades na adaptação às novas regras.
A reforma tributária de 2027 entrou em uma etapa decisiva após o Tribunal de Contas da União (TCU) aprovar, na quarta-feira (28 de outubro), uma alíquota de referência de 11,3% para a Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS), novo tributo federal que substituirá impostos atualmente cobrados sobre o consumo.
O percentual, que ainda precisa ser formalizado pelo Senado Federal, provocou preocupação entre representantes de empresas e entidades produtivas. O principal receio é que a transição para o novo modelo tributário resulte em aumento de custos e, em determinados setores, pressione os preços de produtos e serviços.
A implementação da reforma está prevista para começar em 1º de janeiro de 2027, mas ainda depende de decisões do governo federal e do Congresso Nacional.
Além da definição da CBS, permanecem pendentes regras relacionadas ao Imposto Seletivo, conhecido como Imposto do Pecado, e à manutenção temporária do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) para determinados produtos.
CBS de 11,3% supera estimativas e gera preocupação
A alíquota de 11,3% aprovada pelo TCU ficou acima das estimativas de especialistas, que trabalhavam com um percentual próximo de 9%.
Segundo avaliações de técnicos do governo, uma alíquota nessa faixa não seria suficiente para preservar o nível atual de arrecadação federal durante a substituição dos tributos.
A CBS substituirá o PIS, a Cofins e o IOF-Seguros, além de compensar parcialmente a arrecadação que deixará de existir com a redução do IPI.
O percentual de referência foi encaminhado ao Senado Federal, que terá até dezembro para estabelecer a alíquota por meio de resolução.
A definição de 11,3% ainda não significa que a cobrança esteja definitivamente fixada.
A decisão final é importante para que empresas possam calcular os custos tributários e concluir seus planejamentos financeiros para 2027.
Empresas alertam para risco de aumento de preços
A divulgação da alíquota provocou reação da Coalizão das Frentes Produtivas, que reúne representantes parlamentares e entidades empresariais.
Em manifesto divulgado durante a semana, o grupo defendeu que a reforma tributária preserve o princípio da neutralidade da carga tributária.
Na prática, a reivindicação é que a substituição dos impostos atuais pelos novos tributos não resulte em aumento da arrecadação por meio de uma carga maior sobre empresas e consumidores.
A coalizão também pediu que o Senado examine com rigor o cálculo da CBS apresentado pelo TCU.
O manifesto foi assinado por 12 frentes parlamentares e 12 entidades empresariais, incluindo a Associação Brasileira da Indústria de Hotéis (ABIH), o Fórum de Operadores Hoteleiros do Brasil (FOHB) e o Sistema Integrado de Parques e Atrações Turísticas (Sindepat).
Representantes do setor produtivo argumentam que eventuais aumentos nos custos tributários e operacionais podem afetar os valores cobrados pelos produtos e serviços.
Isso, porém, não significa que todos os preços necessariamente subirão, já que os efeitos dependerão das regras definitivas e das características de cada atividade econômica.
Reforma tributária poderá ser adiada?
Outra preocupação envolve o prazo disponível para adaptação das empresas.
A partir de 2027, negócios de diferentes setores precisarão adequar sistemas de gestão, procedimentos internos e emissão de documentos fiscais às novas exigências.
Parte do setor produtivo defende o adiamento de um ano na implementação da reforma tributária, alegando que ainda existem dúvidas sobre obrigações acessórias e regras operacionais.
A advogada Priscila Faricelli, sócia da área tributária do escritório Demarest Advogados, avalia que a ausência de parâmetros definitivos aumenta a insegurança jurídica.
Segundo ela, muitas empresas ainda não conseguiram concluir seus orçamentos e planejamentos para o próximo ano.
A especialista também chama atenção para os custos de adaptação tecnológica e operacional, que podem representar despesas adicionais para as empresas.
Apesar das discussões sobre uma possível postergação, o cronograma oficial continua prevendo o início da cobrança da CBS em janeiro de 2027.
Imposto do Pecado: quais produtos poderão ser tributados?
O governo federal também precisa definir as alíquotas do Imposto Seletivo (IS), criado para incidir sobre determinados produtos e serviços considerados prejudiciais à saúde ou ao meio ambiente.
Entre os itens previstos estão:
- Cigarros e outros produtos derivados do tabaco;
- Bebidas alcoólicas;
- Bebidas açucaradas, incluindo refrigerantes;
- Veículos;
- Embarcações e aeronaves;
- Bens minerais;
- Concursos de prognósticos, como loterias.
A proposta também chegou a contemplar apostas esportivas, mas, conforme o cenário descrito nas informações divulgadas, as bets foram proibidas de operar no país.
O governo federal pretende encaminhar uma medida provisória para estabelecer as alíquotas do Imposto Seletivo, além de uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC) relacionada à cobrança temporária do IPI.
Por que o Imposto Seletivo deve começar a ser cobrado apenas em fevereiro?
Embora a reforma tributária comece a produzir efeitos em janeiro de 2027, a cobrança do Imposto Seletivo está prevista para fevereiro.
Isso ocorre porque o tributo está sujeito à regra da noventena, que exige um intervalo de 90 dias entre a publicação da norma e o início da cobrança.
Para evitar a interrupção da arrecadação durante esse período, o governo pretende manter temporariamente o IPI sobre determinados produtos que atualmente pagam esse imposto e passarão a ser alcançados pelo Seletivo.
A manutenção deverá valer até a entrada em vigor da nova cobrança.
A medida ainda depende dos procedimentos legislativos necessários.
IPI será zerado para a maioria dos produtos em 2027
Outra mudança importante envolve o Imposto sobre Produtos Industrializados.
A previsão é que o IPI seja zerado para aproximadamente 95% da produção nacional a partir de 1º de janeiro de 2027.
Alguns produtos deverão continuar sujeitos à cobrança, principalmente para preservar a competitividade dos itens industrializados na Zona Franca de Manaus.
O governo federal deverá divulgar a relação dos produtos que permanecerão tributados e daqueles que terão a alíquota zerada.
A definição é considerada importante para que indústrias, comerciantes e prestadores de serviços consigam calcular os efeitos da reforma sobre seus custos.
Como ficará o calendário da reforma tributária?
A implementação do novo sistema ocorrerá de forma gradual, com mudanças distribuídas até 2033.
| Período | Mudanças previstas |
|---|---|
| 2026 | Fase de testes dos novos tributos, sem cobrança efetiva |
| Janeiro de 2027 | Início da cobrança da CBS e substituição de PIS, Cofins e IOF-Seguros |
| Fevereiro de 2027 | Previsão de início da cobrança do Imposto Seletivo |
| 2029 a 2032 | Substituição gradual do ICMS e do ISS pelo IBS |
| 2033 | Implantação integral do novo sistema, com extinção de ICMS e ISS e cobrança plena do IBS |
O Imposto sobre Bens e Serviços (IBS) será de competência dos estados e municípios.
Ele substituirá gradualmente o ICMS, atualmente estadual, e o ISS, cobrado pelos municípios.
O que muda para consumidores e empresários?
A reforma tributária pretende reorganizar a cobrança dos impostos sobre o consumo no Brasil, substituindo diferentes tributos por um novo modelo.
Para as empresas, o período de transição exigirá adaptações nos sistemas fiscais, nas notas fiscais e nos procedimentos de apuração tributária.
Para os consumidores, um dos principais pontos de atenção será o possível impacto das novas alíquotas sobre os preços finais.
Os efeitos poderão variar conforme o setor econômico, a estrutura de custos e as regras definitivas de tributação.
A CBS de 11,3% representa apenas a parcela federal do novo modelo. Esse percentual não corresponde à alíquota total dos tributos sobre o consumo, pois o sistema também contará com o IBS e, para determinados produtos e serviços, com o Imposto Seletivo.
Senado terá papel decisivo nas próximas etapas
Com a alíquota de referência da CBS encaminhada ao Senado, as próximas semanas serão importantes para a definição das regras tributárias que entrarão em vigor em 2027.
O Congresso também deverá analisar as medidas relacionadas ao Imposto Seletivo e à manutenção temporária do IPI.
Enquanto isso, representantes do setor produtivo seguem defendendo maior clareza nas regras, tempo suficiente para adaptação e preservação da neutralidade tributária.
A definição dessas questões será fundamental para que empresas e consumidores possam compreender os impactos concretos da reforma no próximo ano.





