Trituração de pintinhos na indústria de ovos reacende debate sobre bem-estar animal
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Trituração de pintinhos na indústria de ovos reacende debate sobre bem-estar animal

09/09/2026 | 12:21 Por Redacao

Investigação aponta descarte de cerca de 35 mil pintinhos machos em um único dia no Sul do Brasil; prática levanta discussões sobre maus-tratos, custos e alternativas tecnológicas

Uma investigação realizada pela organização Mercy For Animals (MFA) revelou o descarte de cerca de 35 mil pintinhos machos em apenas um dia em um grande incubatório da Região Sul do Brasil. Os animais teriam sido triturados menos de 24 horas após o nascimento.

O nome da empresa envolvida foi preservado, segundo a organização, porque a prática é considerada comum na indústria de ovos. A denúncia reacendeu o debate sobre bem-estar animal, custos de produção, impactos operacionais e alternativas tecnológicas para o setor avícola.

Por que os pintinhos machos são descartados?

Segundo a cadeia produtiva, os pintinhos machos não produzem ovos e não possuem características genéticas consideradas viáveis para a produção de carne.

Por esse motivo, logo após o nascimento, eles são separados das fêmeas e descartados.

A investigação também registrou o descarte de fêmeas em menor escala. Nesses casos, os motivos apontados incluem anomalias, deformidades, nascimentos prematuros ou produção acima da demanda do mercado.

A MFA afirma que o objetivo da investigação não foi apurar uma denúncia específica, mas documentar uma prática que, segundo a entidade, é representativa de grande parte da indústria.

A organização também destaca que os pintinhos recém-nascidos possuem o sistema nervoso formado e são capazes de sentir medo e dor física.

Sexagem in ovo é apontada como alternativa

Uma das alternativas apresentadas para evitar o descarte dos machos é a sexagem in ovo, tecnologia que permite identificar o sexo da ave ainda durante o período de incubação.

Com o método, os ovos que dariam origem a machos podem ser identificados antes da eclosão, evitando que esses animais cheguem a nascer para depois serem descartados.

No Brasil, a primeira máquina de sexagem in ovo foi instalada no ano passado em um incubatório localizado em Nova Granada, no interior de São Paulo.

Tecnologia aumenta os custos

Apesar de ser apontada como alternativa, a tecnologia apresenta custos adicionais para os produtores.

O descarte após o nascimento pelo método convencional tem custo estimado em R$ 7 por ave. Já dados da organização Innovate Animal Ag indicam que a sexagem pode acrescentar entre R$ 5 e R$ 10 por ave.

A entidade argumenta que, considerando que uma galinha poedeira produz cerca de 350 ovos durante sua vida produtiva, o custo adicional da tecnologia representaria apenas alguns centavos por dúzia para o consumidor final.

Países já proibiram a prática

Alemanha, França, Áustria e Itália já aprovaram leis que proíbem a trituração de pintinhos.

Noruega e Suíça também eliminaram a prática por exigência do próprio mercado e adotaram a sexagem in ovo sem a necessidade de uma legislação específica determinando a mudança.

Representantes da Mercy For Animals defendem que a experiência europeia demonstra que a transição para métodos alternativos é possível.

O que diz a legislação brasileira

A Constituição Federal proíbe práticas que submetam animais à crueldade, sem estabelecer distinção entre espécies. Entretanto, atualmente não existe uma legislação específica no Brasil que trate diretamente da trituração de pintinhos na indústria de ovos.

Dois projetos de lei relacionados ao tema foram apresentados no Congresso Nacional.

O PL 783/2024, da deputada Luciene Cavalcante (PSOL-SP), já passou pelas Comissões de Meio Ambiente e de Agricultura, Pecuária, Abastecimento e Desenvolvimento Rural da Câmara dos Deputados. A proposta recebeu parecer contrário na Comissão de Agricultura por questões econômicas e deverá seguir para análise do plenário.

Já o PL 3034/2026, apresentado em junho pela deputada Heloísa Helena (Rede-RJ), ainda está no início da tramitação.

A Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA), entidade que representa o setor de aves e ovos, foi procurada para se manifestar sobre a prática, mas ainda não havia apresentado posicionamento. O espaço permanece aberto para manifestação.