Presidente anunciou saída do cargo nesta quinta-feira (5), após perder o apoio de aliados e enfrentar acusações relacionadas ao fechamento do banco digital Ueno, que deixou milhares de clientes sem acesso ao dinheiro.
O presidente do Paraguai, Santiago Peña, renunciou ao cargo nesta quinta-feira (5 de novembro), em meio a uma grave crise política e financeira provocada pelo fechamento do banco digital Ueno.
A decisão foi anunciada após o Congresso paraguaio iniciar a discussão de um pedido de impeachment que recebeu apoio tanto da oposição quanto de parlamentares da base governista.
Em um vídeo divulgado para comunicar sua saída, Peña pediu desculpas e afirmou que tomou a decisão pensando na estabilidade do país.
“Hoje, devemos mostrar, mais uma vez, que respeitamos a democracia”, declarou.
A renúncia ocorre após o presidente perder o apoio de importantes lideranças políticas, incluindo integrantes de seu próprio partido.
Peña perde apoio do Partido Colorado e enfrenta pressão no Congresso
A situação política de Santiago Peña se agravou na manhã desta quinta-feira, quando aliados anunciaram a retirada de apoio ao governo.
Entre as lideranças que romperam com o presidente estão o presidente do Congresso, Basilio Nuñez, e o ex-presidente Horacio Cartes, uma das principais figuras do Partido Colorado.
O rompimento deixou Peña politicamente isolado e fortaleceu o movimento que defendia seu afastamento.
Todas as bancadas da Câmara dos Deputados haviam anunciado posicionamento favorável à abertura do impeachment.
O Congresso também iniciou uma sessão extraordinária para discutir a acusação apresentada por 35 deputados.
Para dar início aos trâmites do processo, seria necessária a aprovação de dois terços dos parlamentares presentes na sessão.
Diante do avanço da pressão política, Peña optou pela renúncia.
Fechamento do banco Ueno provocou crise no Paraguai
A crise teve início após o banco digital Ueno encerrar suas atividades na terça-feira (3), deixando milhares de clientes sem acesso aos recursos depositados.
A instituição, pertencente ao Grupo Vázquez, possuía aproximadamente 3 milhões de clientes e concentrava cerca de US$ 850 milhões em depósitos públicos, incluindo valores vinculados ao Instituto de Previdência Social.
O Banco Central do Paraguai iniciou a liquidação do Ueno após identificar insuficiência de recursos para cumprir suas obrigações financeiras.
Segundo as informações divulgadas, a situação estava relacionada a empréstimos concedidos a empresas vinculadas à própria instituição.
O fechamento provocou preocupação entre os correntistas e manifestações na capital, Assunção.
Ex-presidente é acusado de conflito de interesses
Uma das principais acusações apresentadas pela oposição envolve a antiga ligação empresarial de Santiago Peña com o grupo responsável pelo Ueno.
O agora ex-presidente foi acionista do grupo controlador da instituição até março de 2025.
Parlamentares oposicionistas apontam suspeitas de conflito de interesses, manipulação de regras e desvio de recursos previdenciários.
Também existem acusações de que o Banco Central paraguaio teria encoberto irregularidades envolvendo a instituição financeira.
Durante a sessão no Congresso, a deputada Rocío Vallejo criticou duramente Peña e o responsabilizou politicamente pelos prejuízos enfrentados pela população.
“Nunca antes alguém prejudicou, em um único dia, 3 milhões de pessoas na República do Paraguai, e o senhor conseguiu isso, senhor presidente”, afirmou.
As acusações ainda dependem de apuração e não representam, por si só, comprovação de responsabilidade criminal do ex-presidente.
Justiça acusa 27 pessoas ligadas ao banco
As investigações sobre a crise financeira também resultaram em medidas judiciais contra integrantes da instituição.
Executivos do Ueno se entregaram às autoridades após a emissão de mandados de prisão pela Procuradoria.
Ao todo, 27 pessoas ligadas ao banco foram formalmente acusadas, e a Justiça determinou o bloqueio de bens dos investigados.
As autoridades buscam esclarecer as operações financeiras que contribuíram para a situação de insolvência da instituição.
Peña havia prometido devolver dinheiro aos clientes
Antes de anunciar sua renúncia, Santiago Peña havia se manifestado sobre a crise bancária.
Em publicação nas redes sociais, afirmou que os responsáveis pelas irregularidades deveriam responder à Justiça, sem exceções.
O então presidente também promulgou uma lei destinada a permitir que os clientes do Ueno recuperassem seus recursos com maior rapidez.
“Peço veementemente a todos os setores políticos que coloquem o interesse dos poupadores acima de qualquer outro interesse”, declarou.
Apesar das medidas anunciadas, a pressão política aumentou e culminou na saída do presidente.
Crise bancária preocupa população e instituições financeiras
O fechamento do Ueno também provocou reflexos em outras instituições financeiras do Paraguai.
Na quarta-feira (4), circularam relatos de instabilidade em aplicativos bancários, aumentando a preocupação dos clientes com a segurança do sistema financeiro.
A Associação de Bancos do Paraguai (Asoban) informou que as instituições estavam trabalhando para atender ao aumento da procura por transferências de contas.
A entidade afirmou que o sistema bancário permanecia operando normalmente.
Santiago Peña estava no poder desde 2023
Santiago Peña assumiu a Presidência do Paraguai em 2023.
Economista e integrante do Partido Colorado, ele também exerceu o cargo de ministro da Fazenda durante o governo de Horacio Cartes.
Sua saída representa uma mudança significativa no cenário político paraguaio, após a perda de sustentação no Congresso e o agravamento da crise bancária.
Até a atualização das informações, não haviam sido apresentados detalhes sobre os próximos procedimentos de transferência do comando do Executivo.





