Carros chineses derrubam preços de seminovos; queda chega a 21%
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Carros chineses derrubam preços de seminovos; queda chega a 21%

04/09/2026 | 19:22 Por Redação MZ

Modelos de até três anos de uso tiveram redução média de 9,3% nas negociações do primeiro semestre, enquanto alguns veículos perderam mais de 20% do valor.

Mercado de usados sente pressão dos carros novos

A expansão das marcas chinesas no mercado brasileiro e a onda de descontos oferecidos pelas montadoras estão mudando a relação de preços entre carros novos e usados.

Levantamento da Auto Avaliar aponta que o valor efetivamente negociado por veículos com até três anos de uso caiu 9,3% entre janeiro e junho de 2026. No mesmo período, a redução registrada pela tabela Fipe foi de 2,4%.

A diferença mostra que os preços praticados nas negociações estão recuando em ritmo bem mais acelerado do que as referências tradicionais utilizadas pelo mercado.

Alguns modelos perderam mais de 20%

A desvalorização foi ainda mais forte em determinados veículos.

Entre os modelos que apresentaram as maiores quedas no primeiro semestre estão:

  • Toyota Corolla 2025: redução de 21,2%;
  • Volkswagen T-Cross 2025: queda de 20,9%;
  • Honda HR-V 2025: redução de 20%.

Volkswagen Nivus e os Toyota Corolla Cross, Yaris e SW4 também aparecem entre os veículos que mais perderam valor no período.

Descontos nos zero km mudam referência

A chegada de novos modelos chineses aumentou a disputa no mercado e levou fabricantes tradicionais a ampliar descontos e condições comerciais.

Modelos como Hyundai Creta, Jeep Compass, Volkswagen T-Cross e Nivus passaram a contar com estratégias mais agressivas de preço e financiamento.

Entre maio e agosto, alguns descontos anunciados chegaram a dezenas de milhares de reais. O Mitsubishi Outlander PHEV, por exemplo, teve redução de R$ 55 mil, enquanto o Suzuki e-Vitara recebeu desconto de até R$ 50 mil.

O Fiat Fastback Hybrid teve redução de R$ 38,5 mil. Já o BYD Song Pro ficou R$ 28,5 mil mais barato, movimento também relacionado à chegada do Song Pro Flex.

Procura por carros chineses dispara

A preferência do consumidor também está mudando.

Dados da OLX Autos mostram que as buscas por veículos de marcas chinesas cresceram 124% entre janeiro e julho de 2026, na comparação com o mesmo período do ano passado.

A faixa entre R$ 100 mil e R$ 130 mil concentra 27% das pesquisas por carros chineses na plataforma.

A combinação de preços competitivos, novas tecnologias e maior oferta de modelos vem ampliando a presença dessas marcas no mercado brasileiro.

Seminovo pode custar mais que carro novo

As promoções dos veículos zero km também criaram situações em que comprar um seminovo pode deixar de ser financeiramente vantajoso.

Uma simulação da Auto Avaliar mostra essa diferença. Em um dos exemplos, um Jeep Compass Sport novo, anunciado por R$ 174 mil, poderia ser adquirido na loja por R$ 147 mil, com R$ 88 mil de entrada na troca e financiamento de R$ 59 mil em 30 parcelas sem juros de R$ 1.966,67.

No caso de um Volkswagen Taos Comfortline 2025 usado, o preço anunciado era de R$ 164 mil e o valor negociado ficava em R$ 159 mil. Com R$ 88 mil na troca, seriam financiados R$ 71 mil em 30 parcelas, com juros de 1,6% ao mês.

Nesse cenário, o custo total estimado do Taos chegaria a R$ 177,9 mil, enquanto o Compass novo ficaria em R$ 147 mil, sem considerar outras taxas.

Ou seja, mesmo anunciado por um valor menor, o seminovo poderia representar um custo final cerca de R$ 30 mil superior ao do zero km.

Preço negociado cai mais rápido que tabela

Outro dado da Auto Avaliar reforça a diferença entre os valores divulgados e aqueles efetivamente praticados nas lojas.

Entre junho de 2025 e junho de 2026, o preço médio das transações de carros zero km caiu 3,5%. Já o preço público recuou 1,5%.

Para Geraldo Victorazzo, vice-presidente da Auto Avaliar, uma redução significativa no preço de um modelo novo muda rapidamente a referência utilizada pelo consumidor e afeta diretamente os seminovos.

Segundo ele, o problema pode atingir principalmente lojistas que compraram veículos pouco antes de uma grande promoção, usando uma referência de mercado que posteriormente perdeu valor.

Usados ainda movimentam milhões de negócios

Apesar da pressão sobre os preços, o mercado de seminovos continua com forte volume de negociações.

Entre janeiro e julho de 2026, foram vendidos 7,9 milhões de automóveis e comerciais leves usados no Brasil.

Isso representa uma proporção de aproximadamente 4,88 veículos usados negociados para cada carro novo vendido no período.

Para os especialistas, o cenário exige maior cuidado por parte de lojistas e concessionárias na formação dos estoques.

Entre os principais fatores que devem ser considerados estão:

  • velocidade de desvalorização;
  • facilidade de revenda;
  • tempo estimado de permanência do veículo no estoque.

Queda não significa crise no setor

A consultora Tereza Fernandez avalia que a redução dos preços dos seminovos vem se consolidando ao longo de 2026, principalmente pela entrada das marcas chinesas e pelas promoções dos fabricantes tradicionais.

Ela afirma que lojas com estoques elevados podem sofrer perdas maiores, já que os veículos comprados anteriormente podem precisar ser revendidos por valores menores.

Apesar disso, a especialista não considera que exista necessariamente uma crise no setor de veículos usados. O impacto dependerá da velocidade da desvalorização e da quantidade de carros mantidos em estoque.

Para quem pretende trocar um usado por outro, o efeito tende a ser mais equilibrado, já que tanto o veículo vendido quanto aquele que será comprado podem ter sofrido redução de preço.

Tecnologia chinesa ganha espaço

Para Cássio Pagliarini, da Bright Consulting, a mudança no comportamento do consumidor também está relacionada à maior confiança na compra de veículos novos.

Com preços mais competitivos, parte dos consumidores que tradicionalmente buscava seminovos passou a considerar os zero km.

Os modelos chineses se destacam nesse cenário por oferecerem recursos de eletrificação, tecnologia e períodos de garantia considerados atrativos para os compradores.

Pagliarini avalia que o mercado brasileiro pode chegar próximo de 3 milhões de veículos em 2026, mas o resultado poderia ser maior caso o acesso ao financiamento fosse mais fácil.

Crédito continua sendo obstáculo

Mesmo com demanda pelo produto, a dificuldade de aprovação de financiamentos continua limitando parte das negociações.

Os bancos passaram a adotar critérios mais rígidos diante do cenário de inadimplência, dificultando o acesso ao crédito para alguns consumidores.

Com isso, o mercado de automóveis vive uma combinação de fatores: mais modelos chineses, descontos maiores nos zero km, queda acelerada dos preços dos seminovos e restrições ao financiamento.