Juros de 14% ao ano, avanço do endividamento e piora das contas públicas aumentam a pressão sobre famílias, empresas e governo.
Dívida pública chega ao maior nível desde 2021
A economia brasileira atravessa um período marcado por uma série de indicadores negativos em diferentes áreas. Enquanto famílias e empresas enfrentam dificuldades para pagar suas contas, as contas públicas também registram deterioração, com aumento da dívida e resultados recordes de déficit.
A dívida bruta do governo alcançou R$ 10,95 trilhões em julho, equivalente a 82,5% do Produto Interno Bruto (PIB). O percentual é o maior desde abril de 2021 e representa uma alta de 10,8 pontos percentuais desde o início do terceiro mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
O avanço ocorre mesmo com uma arrecadação elevada. Para 2026, o governo estima receitas federais de R$ 3,24 trilhões, o equivalente a 23,7% do PIB. Se confirmado, será o maior percentual da série histórica do Tesouro Nacional, iniciada em 1997.
O cenário indica que o problema não está apenas no volume arrecadado, mas também na dificuldade de conter o crescimento das despesas.
Quase 84 milhões de brasileiros estão inadimplentes
Entre as famílias, um dos principais sinais de pressão financeira aparece no número de consumidores com dívidas atrasadas.
Em julho, quase 84 milhões de brasileiros estavam inadimplentes, segundo dados da Serasa Experian. É o maior número registrado pela instituição.
O comprometimento mensal da renda das famílias com o pagamento de dívidas estava próximo de 30%, um dos níveis mais elevados da série histórica do Banco Central, iniciada em 2007.
Outro indicador chama atenção: em maio, 81,6% das famílias estavam endividadas, maior percentual da pesquisa da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC).
Endividamento e inadimplência, porém, não significam a mesma coisa. Uma família pode ter parcelas de empréstimos, financiamentos ou faturas de cartão ainda dentro do prazo. A inadimplência ocorre quando esses compromissos vencem e não são pagos.
Empresas também enfrentam dificuldades
O problema se estende ao setor empresarial.
Segundo a Serasa Experian, 9,2 milhões de empresas estavam inadimplentes, acumulando aproximadamente R$ 239 bilhões em dívidas vencidas.
A situação atinge negócios de diferentes portes e pode dificultar o pagamento de fornecedores, bancos, funcionários e tributos.
Quando a negociação direta com os credores não consegue solucionar o problema, algumas companhias recorrem à recuperação judicial. Em junho, o Brasil chegou a 6.341 empresas nessa situação, maior número registrado pelo Monitor RGF-BizDoc.
O volume representa crescimento de 66% em três anos.
Recuperações judiciais atingem empresas conhecidas
Entre os casos recentes estão empresas como Casas Bahia, Marabraz, Grupo Gennius, controlador das redes Habib’s e Ragazzo, e Braskem.
A Casas Bahia tenta renegociar aproximadamente R$ 17,3 bilhões em dívidas. Já a Marabraz declarou débitos de cerca de R$ 140 milhões.
A Fertilizantes Heringer conseguiu proteção temporária contra cobranças para negociar aproximadamente R$ 834 milhões, enquanto a Chilli Beans iniciou uma reestruturação envolvendo cerca de R$ 600 milhões em dívidas bancárias.
A dificuldade financeira das empresas tem reflexos sobre toda a economia, porque reduz a capacidade de investir, contratar e comprar de fornecedores.
Juros altos aumentam a pressão
Boa parte desse cenário ocorre enquanto a taxa básica de juros permanece em 14% ao ano.
A Selic elevada encarece empréstimos e financiamentos, torna mais cara a renegociação de dívidas e faz com que as instituições financeiras adotem maior rigor na concessão de crédito.
Para os consumidores, isso significa prestações maiores e menos renda disponível para outros gastos. Para as empresas, o crédito mais caro dificulta investimentos, formação de estoques e expansão das operações.
Com menos dinheiro circulando, as vendas também podem perder força, criando um ciclo de menor atividade econômica, endividamento e inadimplência.
Estatais registram pior resultado da série
Outro sinal de alerta está nas empresas estatais federais.
Entre janeiro e julho, elas acumularam déficit de R$ 8,277 bilhões, pior resultado para o período desde o início da série do Banco Central, em 2002.
O cálculo não considera Petrobras, Eletrobras nem os bancos públicos.
Os Correios estão entre os casos que ajudam a explicar a deterioração. A empresa terminou 2025 com prejuízo de R$ 8,5 bilhões e contratou um empréstimo de R$ 12 bilhões, com garantia do Tesouro Nacional, para quitar dívidas e reforçar o caixa.
O governo também já admitiu a possibilidade de novos aportes de recursos públicos na companhia.
Rombo das contas públicas cresce
Considerando União, estados, municípios e estatais, o setor público registrou déficit primário de R$ 78,8 bilhões nos primeiros sete meses de 2026.
No mesmo período do ano anterior, o resultado negativo havia sido de R$ 44,5 bilhões.
O resultado primário considera receitas e despesas sem incluir os juros da dívida. Quando os juros entram na conta, o desequilíbrio aumenta consideravelmente.
Nos 12 meses encerrados em julho, o déficit nominal chegou a R$ 1,24 trilhão, equivalente a 9,34% do PIB. Desse total, R$ 1,15 trilhão correspondeu aos juros da dívida.
Recordes negativos se conectam
Os diferentes indicadores acabam se relacionando.
O crédito caro dificulta a vida de consumidores e empresas. A inadimplência reduz o espaço financeiro para consumo e investimento. Ao mesmo tempo, o aumento das despesas públicas e da dívida pressiona as expectativas econômicas e pode dificultar uma redução mais rápida dos juros.
O governo atribui parte das dificuldades à Selic elevada e aposta em medidas de renegociação de dívidas e estímulo ao consumo para amenizar os efeitos sobre famílias e empresas.
Economistas, porém, avaliam que a expansão dos gastos públicos aumenta o endividamento, afeta as expectativas de inflação e reduz o espaço para cortes nos juros.
As medidas de alívio podem ajudar no curto prazo, mas não eliminam os fatores estruturais por trás do elevado nível de endividamento.
Com famílias e empresas pressionadas, estatais acumulando déficits e a dívida pública em alta, os números negativos deixam de ser episódios isolados e passam a representar um desafio para o consumo, os investimentos e o crescimento do país.





