Polilaminina é aplicada pela primeira vez nos Campos Gerais no HU-UEPG
Saúde

Polilaminina é aplicada pela primeira vez nos Campos Gerais no HU-UEPG

08/10/2026 | 15:10 Por Redacao

Substância experimental foi utilizada em paciente com lesão medular e integra uma nova frente de pesquisa voltada à regeneração de tecidos e conexões nervosas

O Hospital da Universidade Estadual de Ponta Grossa (HU-UEPG) realizou, em 23 de setembro, a primeira aplicação de Polilaminina nos Campos Gerais. A substância experimental é estudada como uma possibilidade inovadora para o tratamento de lesões agudas da medula espinhal, com o objetivo de estimular a regeneração de tecidos e conexões nervosas.

A utilização ocorreu em caráter compassivo, conforme a RDC Anvisa nº 38/2013, modalidade em que o uso do medicamento é analisado individualmente para cada caso.

Substância busca estimular regeneração da medula

A Polilaminina foi desenvolvida pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), em parceria com o Laboratório Cristália. O neurocirurgião e especialista em cirurgia de coluna Marco Aurélio Braz de Lima, pesquisador responsável pela aplicação no HU-UEPG juntamente com o médico Rui Tamoyo Vendas Rodrigues Neto, explica que a substância tem como base uma proteína naturalmente encontrada no organismo.

Segundo Braz de Lima, após uma lesão da medula espinhal, as células nervosas enfrentam dificuldades para se regenerar e estabelecer novas conexões.

A laminina atua naturalmente como uma espécie de estrutura de suporte para o crescimento dessas células. A Polilaminina é uma forma desenvolvida dessa proteína e é aplicada diretamente na região lesionada com a finalidade de estimular o processo de regeneração.

Os estudos começaram com testes em animais, incluindo roedores e cães. Em janeiro de 2026, houve autorização para a Fase 1 de testes em humanos, principalmente envolvendo casos graves de lesão medular.

Aplicação representa avanço para o HU-UEPG

Para a diretora-geral dos Hospitais da UEPG, professora Fabiana Mansani, a utilização da Polilaminina representa um momento relevante para a instituição e para a saúde pública dos Campos Gerais.

Segundo ela, por ser um hospital universitário exclusivamente voltado ao SUS, o HU-UEPG tem entre suas funções integrar assistência, ensino, pesquisa e inovação.

Fabiana destaca que a participação em uma iniciativa desse tipo demonstra a capacidade da instituição de acompanhar avanços científicos e tecnológicos na área da saúde, possibilitando que pacientes atendidos pelo SUS tenham acesso a uma terapia inovadora dentro de um hospital público e universitário.

Ela também ressalta que a iniciativa envolve profissionais de diferentes áreas, pesquisadores, residentes, gestores e equipes de apoio.

Equipes trabalharam para viabilizar procedimento

O diretor técnico dos HU-UEPG, médico Marcelo Young Blood, afirma que o paciente é o principal beneficiado pela iniciativa, mesmo diante do caráter experimental da medicação.

Segundo ele, a possibilidade de participar de um tratamento que pode contribuir para o processo de reabilitação também pode trazer um impacto psicológico positivo ao paciente.

Young Blood destaca ainda que a aplicação só foi possível graças à atuação conjunta das equipes do hospital e da 4ª Regional de Saúde, que trabalharam inclusive fora do horário habitual para conseguir as autorizações necessárias e viabilizar a utilização da medicação dentro do prazo.

Procedimento foi acompanhado pela equipe de neurocirurgia

O responsável pela neurocirurgia do HU-UEPG, médico Fábio Viegas, acompanhou diretamente a aplicação.

De acordo com ele, a equipe do hospital e os profissionais das Unidades de Terapia Intensiva já conheciam os critérios necessários para que um paciente pudesse receber a Polilaminina. O que faltava era estabelecer o contato com os responsáveis pelo estudo.

Quando surgiu um paciente que atendia aos critérios, o HU-UEPG entrou em contato com o Laboratório Cristália por meio da direção técnica. A liberação do laboratório ocorreu de forma rápida, seguida pela autorização da Anvisa.

Uma equipe do Rio de Janeiro também foi enviada para orientar e acompanhar o procedimento.

Viegas descreveu a experiência como um momento de grande entusiasmo profissional, comparando a situação ao aprendizado de uma nova técnica neurocirúrgica durante a residência, mas com a diferença de que, desta vez, o procedimento poderia impactar diretamente a recuperação do paciente.

Quem pode receber a Polilaminina?

De acordo com o médico Marco Aurélio Braz de Lima, os critérios de elegibilidade para o uso da Polilaminina são:

  • Lesão na região torácica;
  • Até 72 horas desde o trauma;
  • Déficit neurológico completo, classificado como ASIA grau A;
  • Idade entre 18 e 72 anos.

Novos casos devem ser encaminhados diretamente ao laboratório pela família e/ou pelo médico responsável pelo paciente. O encaminhamento deve incluir relatório médico, exames de imagem e a data da lesão.

Casos que não se enquadrem nos critérios estabelecidos somente podem ser atendidos mediante autorização judicial.

Medicamento ainda está em fase experimental

Fábio Viegas reforça que a Polilaminina ainda é uma medicação experimental e está em uma etapa inicial de avaliação de seu uso em seres humanos.

Apesar disso, a substância é estudada há mais de uma década em laboratório e, segundo o médico, os resultados obtidos até agora são considerados promissores.

Viegas afirma que ainda existe um longo caminho de pesquisas e avaliações, mas considera significativa a possibilidade de a terapia contribuir futuramente para a recuperação de pacientes com sequelas provocadas por lesões neurológicas graves da coluna.

A diretora-geral dos Hospitais da UEPG, Fabiana Mansani, ressalta que o paciente permanece acompanhado por uma equipe especializada e passa por monitoramento contínuo da evolução clínica.

Segundo ela, neste momento, é necessário cautela na interpretação dos resultados, já que a aplicação representa apenas uma etapa de um processo que exige acompanhamento médico e avaliação criteriosa ao longo do tempo.