A criação de uma padaria comunitária na ocupação Emílio Zapata, pensada para gerar trabalho e renda no campo, começou a sair do papel após moradores e entidades locais identificarem a necessidade de ampliar oportunidades na comunidade.
A proposta foi construída coletivamente e prevê a aquisição de equipamentos para produção de pães e outros alimentos, que deverão ser administrados pela própria associação da ocupação.

A iniciativa é um exemplo de projeto que surgiu dentro dos Núcleos de Cooperação Socioambiental, estratégia coordenada pela Itaipu Binacional para estimular soluções construídas a partir das próprias comunidades.
Para entender como esses núcleos funcionam na prática e qual é o impacto nas comunidades da região, a reportagem conversou com Gerveson Tramontin, coordenador dos núcleos dos Campos Gerais, Centro-Sul e Centro Paranaense, que juntos abrangem 41 municípios. “O núcleo é um espaço de organização, mobilização, apoio e diálogo para fortalecer as organizações sociais. A ideia é sentar, fazer um diagnóstico da realidade do território e, a partir daí, construir ações para resolver os problemas locais”, explica.
Programa reúne entidades de centenas de municípios
Os Núcleos de Cooperação Socioambiental fazem parte do Programa Governança Participativa para a Sustentabilidade, criado em 2024 para fortalecer a gestão territorial e estimular a colaboração entre diferentes setores da sociedade.
Atualmente, a iniciativa é formada por 21 núcleos, que abrangem 434 municípios do Paraná e do sul do Mato Grosso do Sul, área de atuação prioritária da Itaipu.
Ao todo, o programa já reúne representantes de mais de mil entidades, incluindo organizações sociais, universidades, integrantes do poder público e representantes do setor produtivo. A iniciativa também conta com apoio do Itaipu Parquetec.
Participação de entidades e moradores
A participação nos núcleos ocorre principalmente por meio de organizações sociais, que aderem à iniciativa através de uma carta de adesão. No entanto, pessoas interessadas também podem acompanhar as discussões, mesmo que ainda não estejam vinculadas formalmente a uma instituição.
No Núcleo Campos Gerais, por exemplo, quase 150 entidades participam das atividades.
Essas organizações integram grupos de trabalho responsáveis por discutir problemas da região e elaborar projetos coletivos para enfrentá-los.
Segundo Tramontin, o conceito de organização social é amplo e inclui diferentes formas de atuação comunitária. “Não estamos falando apenas de entidades privadas sem fins lucrativos. São organizações e grupos que atuam na comunidade e buscam soluções para problemas de forma coletiva”, afirma.
Projetos nascem das necessidades locais
Uma das características dos núcleos é que os projetos são definidos pelas próprias entidades participantes, a partir de diagnósticos da realidade local. O caso da ocupação Emílio Zapata ilustra esse processo. “Eles chegaram a um consenso de que uma das necessidades da comunidade era a geração de emprego no campo. A partir disso surgiu a proposta da padaria comunitária”, explica o coordenador.
Nesse modelo, o recurso é repassado pela Itaipu a uma entidade responsável pelo projeto, que realiza a compra dos equipamentos e posteriormente os transfere para a associação comunitária responsável pela atividade. “A associação vai montar a panificadora e conduzir o trabalho”, afirma.
Iniciativas vão de cultura a segurança alimentar
Além de projetos de geração de renda, os núcleos também articulam iniciativas em diferentes áreas sociais. Entre as ações desenvolvidas estão:
- hortas comunitárias
- oficinas voltadas para jovens
- atividades para pessoas com mais de 60 anos
- projetos de grafite e cultura urbana
- iniciativas ligadas à segurança alimentar
Também estão previstas ações culturais, como a circulação de 30 peças teatrais em municípios com menor Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) do Paraná.
Recursos chegam diretamente às entidades
De acordo com Tramontin, um dos principais diferenciais do modelo é permitir que as próprias organizações decidam como utilizar os recursos. “O primeiro impacto é essa oportunidade de as entidades decidirem juntas e construírem um caminho a partir da própria realidade. É um exercício pedagógico de cidadania”, afirma.
Ele destaca que a Itaipu não define previamente como o dinheiro deve ser aplicado. “A Itaipu não diz ‘aqui está o dinheiro e você precisa gastar nisso’. O recurso é liberado a partir de projetos elaborados pelas próprias entidades”, explica.
Outro ponto destacado é que os recursos chegam diretamente às instituições que atuam nas comunidades. “Esse dinheiro vai direto para quem atende a população e conhece a realidade. Uma APAE, por exemplo, sabe exatamente quais são as necessidades das pessoas que atende”, diz.
Projeto também apoia catadores de recicláveis
Entre as iniciativas em andamento está um projeto voltado ao fortalecimento de catadores de materiais recicláveis, desenvolvido em dez municípios.
A proposta prevê um levantamento para identificar quem são esses trabalhadores e onde atuam, além do mapeamento de depósitos irregulares de materiais recicláveis. “Muitas vezes o catador não tem um espaço adequado e acaba armazenando material em locais irregulares, o que pode gerar problemas sanitários para ele, para a família e para a comunidade”, explica Tramontin.
A partir desse diagnóstico, será elaborado um plano de ação com base nas demandas apontadas pelos próprios catadores.
O trabalho conta com a participação dos trabalhadores e também de bolsistas de universidades, responsáveis por auxiliar no levantamento das informações.
Objetivo é transformar demandas em políticas públicas
Todos os projetos passam por processos de monitoramento, avaliação e prestação de contas, que incluem análise financeira e acompanhamento dos resultados das ações.
Segundo o coordenador, a meta de longo prazo é que as demandas identificadas pelas entidades sejam incorporadas pelo poder público. “A ideia é transformar essas necessidades em políticas públicas permanentes, para que as organizações não precisem depender sempre de recursos pontuais para resolver problemas estruturais”, afirma.
Próximo encontro será em maio
O próximo encontro dos núcleos está previsto para maio, na Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR).
Entre os temas que devem ser debatidos estão a execução dos convênios em andamento e um seminário sobre o futuro do trabalho, aberto a jovens, professores e demais interessados.
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