De minoria a quase 50 milhões: crescimento evangélico no Brasil amplia influência social e gera debates
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De minoria a quase 50 milhões: crescimento evangélico no Brasil amplia influência social e gera debates

05/03/2026 | 15:08 Por redacao__mz

O crescimento das igrejas evangélicas no Brasil tem se consolidado como uma das transformações religiosas mais marcantes das últimas décadas, alterando não apenas o cenário de fé no país, mas também influenciando debates sociais, culturais e políticos.

Dados do último Censo (2022) apontam que os evangélicos passaram de 21,6% da população em 2010 para 26,9% em 2022, que equivale cerca de 47,4 milhões de pessoas.

Em 1970, esse grupo representava apenas 5% da população brasileira. Segundo o levantamento os evangélicos já são maioria em 244 municípios do país, sendo que em 58 deles representam mais de 50% da população. A maior proporção está nas regiões Norte (36,8%) e Centro-Oeste (31,4%). 

Especialistas apontam que o avanço evangélico está ligado a fatores como expansão territorial das igrejas, forte presença comunitária, linguagem religiosa acessível e atuação social em bairros periféricos e centros urbanos.

Para compreender como lideranças religiosas interpretam esse crescimento, a reportagem ouviu a missionária Adriana Jamier, da Igreja do Evangelho Quadrangular Central de Ponta Grossa, que comentou o avanço das igrejas e os desafios que acompanham essa expansão.

Missionária Adriana Jamier e Pastor João Jamier.

Da pequena igreja ao antigo Cine Inajá

A Igreja do Evangelho Quadrangular baseia sua atuação em quatro doutrinas centrais: a salvação, o batismo com o Espírito Santo, a cura divina e a segunda vinda de Cristo. Segundo Adriana, esses princípios estruturam a mensagem central da denominação.

A trajetória de liderança da ministra em Ponta Grossa começou com a proposta de instalar uma igreja na região central da cidade. Inicialmente, o espaço alugado tinha cerca de 150 metros quadrados e foi viabilizado com investimento próprio.

Com o aumento do número de fiéis, os cultos passaram a ocorrer várias vezes ao dia. O crescimento da comunidade acabou levando à busca por um espaço maior, até que surgiu a possibilidade de ocupar o prédio do antigo Cine Inajá, local tradicional da cidade. “Eu disse: ‘como? Impossível. Nosso grupo é muito pequeno e não vamos ter condições financeiras de assumir esse aluguel’”, relembra.

Segundo ela, a mudança foi possível graças à contribuição da própria comunidade religiosa. “Foi por meio de dízimos, ofertas e da ajuda dos fiéis que conseguimos assumir o espaço”. Para Adriana, a presença das igrejas nos diferentes espaços da cidade faz parte da missão religiosa, mas deve vir acompanhada de responsabilidade institucional. “A igreja tem que estar em todos os cantos, onde as pessoas estão, mas a qualidade não pode faltar”, pontua.

Crescimento e busca por acolhimento

Na avaliação da ministra, o crescimento das igrejas evangélicas também está ligado à busca por pertencimento e apoio espiritual em meio às transformações sociais contemporâneas. “A igreja tem esse poder de mostrar, dentro do evangelho de Cristo, um caminho. Ela se torna um espaço de acolhimento, de apoio e de ajuda.”

Em muitas regiões do país, especialmente em áreas urbanas periféricas, as igrejas acabam exercendo também funções sociais e comunitárias que ultrapassam o âmbito exclusivamente religioso.

Entre as ações citadas pela ministra está o trabalho missionário realizado em presídios. Segundo Adriana, a iniciativa busca oferecer apoio espiritual tanto para pessoas encarceradas quanto para suas famílias. “As pessoas precisam pagar pelos crimes que cometeram, mas existem famílias que sofrem junto com elas.”

Expansão e riscos: o alerta sobre igrejas sem preparo

Apesar de considerar o aumento no número de templos algo natural diante da demanda religiosa, Jamier alerta para a necessidade de preparo entre lideranças religiosas. “No meu entendimento, o preparo precisa envolver conhecimento da Palavra, da teologia, mas também a unção espiritual. É preciso cuidado para entrar em uma igreja que tenha história, respaldo e um evangelho genuíno.”

Segundo ela, o crescimento acelerado do setor religioso também pode abrir espaço para práticas questionáveis. “Existem igrejas ruins que se apropriam das fragilidades das pessoas e do evangelho, muitas vezes visando apenas o financeiro.”

A missionária afirma que a contribuição financeira deve ocorrer de forma voluntária. “A Bíblia fala que devemos dar com alegria, não por obrigação, negociação ou pressão. A igreja não é um balcão de negócios, é o altar do Senhor”, defende.

Fé, política e presença social

O crescimento evangélico nas últimas décadas também ampliou a presença de lideranças religiosas no debate público e na política.

Para Adriana, essa participação ocorre porque as igrejas estão inseridas na realidade das comunidades e lidam diretamente com demandas sociais. “A igreja conhece a realidade das pessoas, suas dores, fragilidades e necessidades da cidade.”

Ainda assim, ela ressalta que a missão central da igreja permanece sendo espiritual.

Religião e discurso de ódio

Outro ponto criticado pela ministra é o uso da religião para justificar ataques ou discursos de intolerância. “Eu acho uma vergonha alguém usar a Palavra de Deus para atacar os outros. Isso não combina com o que Jesus ensinou.”

Para ela, o ambiente religioso deveria promover respeito e empatia. “As pessoas estão muito cruéis no modo de tratar o outro. Falta amor, falta respeito. Quem usa o discipulado bíblico para espalhar ódio está indo contra o evangelho”, finaliza. 

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