Pesquisa do Banco Central aponta que analistas já incorporaram parte do impacto do fenômeno climático nas projeções para os preços
Economistas consultados pelo Banco Central (BC) estimam que o fenômeno climático El Niño poderá aumentar a inflação brasileira em 0,5 ponto percentual em 2027. O resultado do levantamento foi divulgado nesta quarta-feira (23).
A estimativa mediana foi registrada entre 89 economistas que responderam ao questionário enviado antes da decisão mais recente do Comitê de Política Monetária (Copom). Entre eles, 83 afirmaram já ter incorporado 0,3 ponto percentual em suas projeções para os preços ao consumidor no próximo ano.
Impacto também é esperado em 2026
Caracterizado pelo aquecimento das águas do Oceano Pacífico e pela redistribuição das chuvas, o El Niño deve se intensificar no segundo semestre deste ano.
Segundo a NOAA (Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos), o fenômeno está se fortalecendo e há mais de 90% de chance de um evento muito forte durante o outono e o inverno do Hemisfério Norte de 2026-27.
O levantamento do Banco Central apontou ainda que a expectativa mediana entre 87 analistas é de um impacto de 0,3 ponto percentual no IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo) em 2026. Nesse caso, 80 participantes já haviam incorporado 0,2 ponto percentual em suas previsões.
Projeção para o IPCA
De acordo com o questionário, a projeção mediana de 110 agentes econômicos indica que o IPCA deve terminar 2026 em 5% e 2027 em 4,3%.
A meta central de inflação perseguida pelo Banco Central é de 3%, com margem de tolerância de 1,5 ponto percentual para mais ou para menos. No regime de meta contínua, em vigor atualmente, a meta é considerada descumprida quando a inflação acumulada permanece por seis meses consecutivos fora do intervalo de 1,5% a 4,5%.
Fenômeno pode afetar alimentos e carnes
O El Niño está entre os fatores considerados pelo Ministério da Fazenda na revisão para cima da projeção de inflação para 2027, que passou de 3,6% para 3,8%.
A Secretaria de Política Econômica (SPE) aponta que um fenômeno mais intenso pode afetar a safra de 2027. Os impactos devem ocorrer inicialmente sobre a produção de grãos e, posteriormente, sobre os preços das carnes.
O órgão também avalia que o El Niño pode pressionar os preços de alimentos in natura ainda em 2026, embora os efeitos mais significativos estejam concentrados na safra do próximo ano.
Banco Central monitora efeitos sobre a inflação
Os impactos do fenômeno climático também aparecem entre os riscos considerados pelo Banco Central para a inflação.
A autoridade monetária apontou a possibilidade de as expectativas para o IPCA permanecerem distantes da meta por um período prolongado devido aos efeitos climáticos sobre a produtividade agrícola e os custos de energia.
Calor extremo também preocupa
Além dos impactos econômicos, o El Niño é apontado como um fator de preocupação para a saúde.
Um estudo do Laboratório de Impacto Climático da Universidade de Chicago estima que o fenômeno poderá estar associado a 451 mil mortes provocadas por dias de calor extremo no mundo entre setembro de 2026 e fevereiro de 2027. Para o Brasil, a estimativa é de 13,3 mil mortes.
Segundo o levantamento, o Brasil aparece entre os países com maior estimativa de impactos à saúde relacionados ao calor excessivo, atrás de Nigéria, Indonésia, Sudão e Índia.





