Procedimento administrativo vai investigar a conduta de servidores e possível negligência no caso ocorrido dentro da unidade socioeducativa
A Secretaria de Estado da Justiça e Cidadania do Paraná (Seju) abriu uma sindicância para apurar o homicídio de um adolescente ocorrido em uma unidade socioeducativa de Ponta Grossa. O procedimento vai investigar a atuação de servidores durante o episódio e verificar se houve eventual desídia, termo utilizado para indicar possível negligência ou falta de diligência no cumprimento dos deveres funcionais.
A medida consta na Resolução SEJU nº 57, de 9 de setembro de 2026, publicada no Diário Oficial do Estado. O documento tem como objetivo esclarecer a dinâmica dos acontecimentos e analisar a conduta funcional dos servidores diante do homicídio ocorrido dentro da unidade.
O ato oficial não identifica nominalmente a vítima nem informa a data do homicídio. Registros públicos relacionados ao caso remetem ao assassinato de Kauã Eleuterio, de 16 anos, ocorrido em janeiro de 2024. Na época, a Polícia Civil apontou que o adolescente teria sido vítima de uma emboscada preparada por outros internos.
Adolescente foi atacado dentro do Cense
O caso aconteceu na manhã de 4 de janeiro de 2024. Inicialmente, a ocorrência foi tratada como uma agressão envolvendo internos.
Kauã sofreu um golpe de estrangulamento, conhecido como “mata-leão”, e foi encaminhado em estado grave ao Hospital Bom Jesus. Ele morreu no dia seguinte, 5 de janeiro.
As investigações realizadas posteriormente modificaram a versão inicial de uma simples briga. De acordo com a apuração conduzida pela Delegacia do Adolescente e pelo Setor de Homicídios da 13ª Subdivisão Policial de Ponta Grossa, cinco internos teriam participado da ação.
A Polícia Civil concluiu que o homicídio havia sido previamente combinado. Segundo o delegado Luis Gustavo Timossi, responsável pelo Setor de Homicídios à época, os envolvidos teriam esperado uma partida de tênis de mesa para executar o plano.
Ponto cego das câmeras e mais de 20 minutos de estrangulamento
A investigação policial apontou que os envolvidos teriam escolhido um ponto cego do sistema de câmeras de segurança da unidade.
Kauã foi levado para debaixo da mesa de tênis de mesa e mantido sob estrangulamento por mais de 20 minutos.
Ainda conforme a investigação, enquanto a vítima era estrangulada, outros envolvidos teriam permanecido próximos às portas e continuado a jogar tênis de mesa para não despertar a atenção dos agentes socioeducativos.
A apuração concluiu que havia planejamento anterior para o crime. A motivação apontada pelo delegado na época teria sido um desentendimento interno entre os adolescentes.
Cinco envolvidos foram identificados
Ao concluir o inquérito, a Polícia Civil informou que cinco pessoas estavam envolvidas no homicídio.
Segundo a versão oficial divulgada na época, dois dos envolvidos já tinham completado 18 anos, embora continuassem cumprindo medidas relacionadas a atos infracionais praticados quando adolescentes.
Eles foram indiciados por homicídio qualificado por emboscada, meio cruel e impossibilidade de defesa da vítima, além de corrupção de menores.
Quanto aos demais adolescentes, a apuração foi encaminhada ao Juízo da Infância e Juventude para análise de atos infracionais análogos a homicídio qualificado.
Em abril de 2024, uma audiência foi realizada no Fórum de Ponta Grossa para tratar do prosseguimento da responsabilização criminal dos acusados adultos.
Sindicância agora mira atuação de servidores
A novidade em 2026 é que a Secretaria da Justiça passou a investigar também o aspecto administrativo da ocorrência.
A resolução assinada pelo secretário estadual da Justiça e Cidadania, Luis Guilherme de Castro, determina a apuração de eventual desídia de servidores no cumprimento de seus deveres funcionais.
Durante a sindicância, poderão ser reunidos documentos, colhidos depoimentos, realizadas diligências e produzidas outras provas consideradas necessárias.
A comissão será presidida por Fabricio Ferreira e terá ainda Willian Ryuichi Mikami e Gilmar Furman de Mendonça como membros.
Ao final do procedimento, a comissão deverá elaborar um relatório conclusivo e encaminhá-lo à autoridade competente.
Investigação não significa culpa dos servidores
O Diário Oficial também menciona os artigos 291 e 292 do Estatuto dos Servidores Públicos do Paraná, que estabelecem diferentes modalidades de punição disciplinar, conforme a gravidade e as circunstâncias eventualmente constatadas.





