Levantamento mostra que escrituras de imóveis cresceram 49,6% na capital paulista desde 2020, enquanto municípios que ganharam moradores durante a pandemia registraram forte desaceleração.
A redução do home office e a retomada do trabalho presencial estão provocando uma nova transformação no mercado imobiliário de São Paulo. Depois da corrida por casas maiores e cidades mais afastadas durante a pandemia, a proximidade do local de trabalho voltou a ganhar peso na decisão sobre onde morar.
Dados do Colégio Notarial do Brasil em São Paulo (CNB/SP) mostram que a capital paulista alcançou em 2025 um recorde histórico de compra e venda de imóveis, com 90.402 escrituras registradas.
O volume representa crescimento de 49,6% em comparação com 2020.
Na direção contrária, algumas cidades que ganharam destaque durante a expansão do trabalho remoto passaram a registrar queda significativa nas transações imobiliárias.
Cidades que cresceram na pandemia perdem força
A mudança fica evidente quando são comparados os números entre 2021 e 2025.
Itupeva: queda de 57%
Cotia: queda de 41%
Indaiatuba: queda de 36%
São João da Boa Vista: queda de 32%
Atibaia: queda de 31%
Peruíbe: queda de 30%
Itu: queda de 28%
Itatiba: queda de 28%
Os números, porém, não significam necessariamente uma saída em massa dos moradores dessas cidades. Segundo o CNB/SP, os dados indicam principalmente uma redução na intensidade das negociações imobiliárias depois do crescimento excepcional registrado durante a pandemia.
Volta aos escritórios muda decisão sobre onde morar
Em 2020, o fechamento dos escritórios permitiu que muitos trabalhadores deixassem os grandes centros sem precisar enfrentar diariamente longos deslocamentos.
Parte das famílias trocou apartamentos por casas com quintal, enquanto outras buscaram cidades consideradas mais tranquilas, imóveis maiores, menor custo de vida ou proximidade de familiares e áreas verdes.
Em 2021, todas as regiões do Estado registraram crescimento expressivo nas escrituras, com altas entre 33% e 36% na comparação com 2020.
A situação começou a mudar à medida que empresas passaram a exigir novamente a presença dos funcionários nos escritórios.
Trabalho presencial volta a predominar
Uma pesquisa realizada pela WeWork em parceria com a Offerwise aponta que 63% dos profissionais trabalham presencialmente. Entre eles, 79% afirmam que essa condição é determinada pela empresa e não por escolha própria.
Outro levantamento, da Robert Half, mostra diferenças importantes entre os setores. Profissionais da construção civil e engenharia trabalham, em média, 4,8 dias por semana presencialmente, enquanto no setor de serviços a média é de 3,3 dias.
As vagas totalmente remotas também perderam espaço diante das oportunidades presenciais e híbridas.
Com isso, trabalhadores que se mudaram para locais mais distantes voltaram a enfrentar custos relacionados a trânsito, combustível, pedágios e transporte.
Entre os trabalhadores presenciais pesquisados pela WeWork, 65% apontaram o deslocamento como a principal desvantagem do modelo. Outros 53% relataram aumento das despesas relacionadas à ida ao trabalho.
Interior turístico devolveu ganhos da pandemia
Os dados dos cartórios indicam que a mudança no mercado começou a ficar mais evidente a partir de 2022.
Enquanto a capital paulista manteve o crescimento, o chamado interior turístico encerrou 2025 com um volume de escrituras equivalente a 99,3% do registrado antes da pandemia.
O litoral apresentou comportamento diferente. A região permaneceu aproximadamente 20% acima do patamar de 2020, embora sem crescimento relevante desde 2023.
Algumas cidades continuam crescendo
A desaceleração não atingiu todos os municípios da mesma maneira.
Entre 2021 e 2025, Taboão da Serra registrou crescimento de 73% no número de escrituras, liderando a alta proporcional entre as cidades analisadas.
Bauru: alta de 42%
Barueri: alta de 26%
Paulínia: alta de 19%
Limeira: alta de 14%
Os números reforçam que a transformação do mercado imobiliário não representa simplesmente uma reversão completa do movimento observado durante a pandemia.
Empresas alegam integração e produtividade
O aumento do trabalho presencial também está relacionado às estratégias adotadas pelas empresas.
Segundo levantamento da Robert Half, 68% das organizações apontam o fortalecimento da cultura organizacional como motivo para aumentar a presença nos escritórios. Outros 63% citam melhora na comunicação e colaboração entre equipes, enquanto 59% mencionam maior integração e supervisão.
Além disso, 50% relacionam o presencial ao aumento da produtividade e 34% dizem seguir orientações da liderança global.
A mudança, entretanto, pode trazer consequências para a retenção de funcionários. Entre os gestores consultados, 54% avaliam que ampliar a presencialidade aumenta o risco de perder talentos.
Do lado dos trabalhadores, 52% afirmaram que considerariam mudar de emprego caso houvesse redução da flexibilidade.




