A Operação Caldarium, deflagrada pelo Ministério Público de São Paulo, levou à prisão de André Weiss, ex-diretor-geral executivo da Administração Tributária e considerado o número 3 da Secretaria da Fazenda de São Paulo (Sefaz-SP). As investigações apuram um suposto esquema de corrupção envolvendo propinas e fraudes tributárias.
Um dos pontos que chamou a atenção dos promotores foi um inventário de R$ 99,9 milhões, referente à herança do pai de Weiss, Eugen Weiss. O inventário foi encerrado em julho de 2023 e tinha André como herdeiro.
Segundo o MP-SP, o patrimônio declarado seria incompatível com o perfil do pai, que era engenheiro aposentado, pesquisador do Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT) e escritor. Para os investigadores, o inventário pode ter sido utilizado para dar uma aparência legal a recursos que teriam origem ilícita.
Diferença nos valores do inventário
Outro ponto considerado suspeito foi a diferença entre o patrimônio registrado no inventário e o valor comunicado pelo próprio cartório ao Coaf.
Enquanto o inventário apontava R$ 99,9 milhões, o cartório teria comunicado ao órgão apenas R$ 579 mil, com valor fiscal de R$ 223 mil.
Para os promotores, essa discrepância indica a possibilidade de um inventário superavaliado, que poderia ter servido para justificar a origem de recursos por meio de uma suposta herança.
Conversas levantaram novas suspeitas
As investigações também encontraram conversas gravadas durante um almoço de negócios, registrado no celular de Artur Gomes da Silva Neto, conhecido como “Rei Artur”, apontado como um dos líderes do esquema.
No áudio, André Weiss aparece falando sobre o receio de ser preso e algemado e demonstrando preocupação com a ostentação de bens adquiridos com dinheiro de origem irregular.
Em determinado momento, ele menciona o exemplo da compra de uma Mercedes de R$ 250 mil, afirmando que uma aquisição desse tipo poderia chamar a atenção das autoridades.
A conversa ocorreu em 27 de julho de 2023, pouco antes da primeira entrega de propina relatada pelo ex-auditor fiscal Paulo Sérgio Siqueira Prado, que posteriormente firmou acordo de delação premiada com o MP-SP.
Weiss teria participado de decisões sobre Ultrafarma e FastShop
Segundo a investigação, Weiss também teve participação na escolha do grupo técnico responsável por revisar processos relacionados ao ressarcimento de ICMS no caso envolvendo Ultrafarma e FastShop.
Em agosto de 2025, ele nomeou oito fiscais para trabalhar na revisão de processos, protocolos e normas relacionadas ao ressarcimento do imposto.
Entre os escolhidos estava Arthur Rafael Gatti Alvares, que também aparece nas investigações sobre possíveis fraudes tributárias dentro da Sefaz-SP.
Patrimônio em nome de familiares
Os promotores afirmam ainda que Weiss teria utilizado familiares para ocultar patrimônio e dificultar a identificação de seus bens e endereço.
Segundo a investigação, diversos registros de consumo e patrimônio estariam em nome da esposa, Beatriz Sbrissa Lucafó.
Em nome dela foram identificados imóveis de alto valor em São Pedro, Piracicaba, Jundiaí e Rio das Pedras, no interior paulista. Alguns desses imóveis, conforme os investigadores, teriam sido pagos em dinheiro.
Movimentações milionárias chamaram atenção
Relatórios analisados pelo MP-SP apontaram movimentações bancárias consideradas incompatíveis com os rendimentos de Weiss como servidor público:
- Santander: cerca de R$ 1,6 milhão em dezembro de 2021;
- Banco do Brasil: aproximadamente R$ 2,6 milhões em maio de 2023;
- Caixa Econômica Federal: mais de R$ 2,4 milhões em novembro de 2023.
Os investigadores consideram que os valores são incompatíveis com o salário recebido na Secretaria da Fazenda e afirmam que as movimentações seriam compatíveis com as suspeitas de recebimento de propina.
Investigação aponta possível lavagem de dinheiro
Para o Ministério Público, o conjunto de elementos — incluindo o inventário milionário, movimentações bancárias, patrimônio registrado em nome de familiares e conversas gravadas — reforça a suspeita de que recursos de origem ilícita teriam sido incorporados ao patrimônio de Weiss.
A investigação ainda busca esclarecer a origem de todo o patrimônio e a participação de cada envolvido no suposto esquema de corrupção e lavagem de dinheiro.
Em resumo: o MP-SP suspeita que o inventário de quase R$ 100 milhões possa ter sido utilizado para dar aparência legal a dinheiro de origem ilícita. A suspeita se soma a movimentações bancárias milionárias, imóveis em nome de familiares e conversas que, segundo os investigadores, indicariam preocupação dos envolvidos em esconder patrimônio e evitar chamar a atenção das autoridades.





