Maior procura por proteínas e alimentos naturais já é percebida em cadeias como leite, carne, avicultura e produção de grãos
Saúde

Maior procura por proteínas e alimentos naturais já é percebida em cadeias como leite, carne, avicultura e produção de grãos

01/10/2026 | 12:37 Por Redacao

A popularização de medicamentos para emagrecimento, como as chamadas canetas emagrecedoras, começa a produzir reflexos que vão além da saúde e chegam também ao agronegócio paranaense.

A mudança nos hábitos alimentares de usuários desses medicamentos tem ampliado a procura por alimentos naturais e ricos em proteínas, criando novas oportunidades em diferentes cadeias produtivas do Estado.

Pesquisa aponta mudança nos hábitos alimentares

Uma pesquisa realizada pela Pluxee com 1,2 mil usuários apontou que 84% das pessoas que utilizam as canetas reduziram o consumo de industrializados, enquanto 83% diminuíram a ingestão de ultraprocessados.

Outros 57% passaram a priorizar fontes de proteína na alimentação.

Segundo a endocrinologista Bruna Cavalheiro, os medicamentos interferem na relação com os alimentos ao atuar em regiões cerebrais ligadas à fome e aos mecanismos de recompensa.

“Após iniciar o tratamento, o desejo por alimentos ultraprocessados, ricos em açúcar, gordura e sal diminui significativamente, facilitando escolhas alimentares mais saudáveis”, explica.

A especialista também destaca que o processo de perda de peso pode envolver redução de massa muscular. Por isso, alimentos como carnes magras, peixes, ovos, leite, derivados e leguminosas podem ganhar maior espaço na alimentação dos usuários.

Whey e produção de leite ganham espaço

Na cadeia leiteira, um dos reflexos aparece na valorização do soro do leite, utilizado na fabricação do whey protein.

O produtor de Carambeí, nos Campos Gerais, Roger van der Vinne, afirma que o produto mudou de patamar nos últimos anos.

“Antes era um subproduto, depois virou um coproduto e hoje já é um produto mesmo. O soro (whey) praticamente triplicou de preço nos últimos dois anos”, afirma.

Vinne mantém aproximadamente 450 vacas em lactação e produz cerca de 18 mil litros de leite diariamente. Apesar da valorização, ele avalia que os efeitos financeiros ainda levam algum tempo para chegar diretamente ao produtor rural.

A mudança também já influencia a genética dos rebanhos. Segundo o produtor, índices utilizados no Canadá e nos Estados Unidos para seleção de touros passaram a dar maior peso à produção de proteína do que à gordura.

Como parte da genética utilizada no Brasil é baseada nesses indicadores, os efeitos também chegam à pecuária nacional.

Carne, frango e ovos entram na tendência

Na pecuária de corte, a procura por proteínas de maior qualidade também pode abrir espaço para produtos com maior valor agregado.

O pecuarista Rodolpho Botelho, de Guarapuava, aponta que técnicas envolvendo bem-estar animal, integração lavoura-pecuária e criação de animais jovens já resultam em pagamentos diferenciados por parte de frigoríficos.

Ele também vê potencial para o crescimento do mercado de carne produzida exclusivamente a pasto, conhecida como grass-fed, especialmente entre consumidores que valorizam sabor, sustentabilidade e formas específicas de produção.

Na avicultura, o movimento também é percebido.

O produtor Marcos Junges, de Missal, avalia que a valorização de proteínas consideradas saudáveis já existia antes da popularização de medicamentos como Mounjaro e Ozempic, mas foi acelerada pelas novas formas de consumo.

Frango e ovos aparecem entre os alimentos procurados por consumidores interessados em fontes de proteína com bom custo-benefício.

O setor avícola já vinha diversificando a produção com opções como ovos enriquecidos, produtos orgânicos e linhas premium.

Produtores de grãos também percebem mudança

A transformação chega ainda às lavouras, embora de forma mais gradual.

Em Tibagi, nos Campos Gerais, o produtor Ivo Arnt, que cultiva aveia, cevada, milho, soja e trigo mourisco, afirma ter percebido aumento na procura por aveia e proteína de soja neste ano.

“O aumento ainda não é significativo a ponto de aparecer nas estatísticas. Mas existe, principalmente para a aveia, que vai para as barras de cereais, e para a proteína de soja. Sentimos uma procura maior neste ano”, relata.

Segundo Arnt, a mudança reforça um movimento que já vinha ocorrendo com o crescimento das dietas voltadas à saúde e da cultura das academias.

Para o produtor, o cenário também pode incentivar agricultores a diversificar a produção e buscar certificações e parcerias com a indústria de alimentos, agregando valor aos produtos e ampliando o acesso a mercados mais exigentes.