Medida vinha sendo defendida por setores da Fazenda e foi definida a 17 dias do primeiro turno; entorno do presidente avalia que reajuste pode alterar o foco do debate eleitoral
O reajuste do Bolsa Família, que vinha sendo defendido há algumas semanas por setores do Ministério da Fazenda como uma forma de conter a insatisfação do eleitorado com a economia, foi definido após o agravamento da crise envolvendo o Supremo Tribunal Federal (STF).
No entorno da campanha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva à reeleição, a avaliação é de que a medida pode deslocar o debate político para uma área considerada mais favorável ao governo.
Crise no STF dificulta narrativa do governo
A participação do ministro Flávio Dino no processo envolvendo a abertura de uma investigação contra o ministro Alexandre de Moraes dificultou a narrativa defendida por Lula de que “todos devem ser investigados”.
Dino é um dos ministros do Supremo mais associados ao presidente. Antes de chegar à Corte, foi uma das principais figuras do governo durante o primeiro biênio da atual gestão, quando comandou o Ministério da Justiça e teve participação nas ações relacionadas ao período posterior aos atos de 8 de janeiro.
Reajuste ocorre a 17 dias do primeiro turno
A decisão de reajustar o Bolsa Família ocorre 17 dias antes do primeiro turno das eleições e já provoca críticas.
Na avaliação da campanha de Lula, porém, os questionamentos estão dentro dos contrapontos tradicionalmente feitos à gestão do PT. O entendimento no entorno do presidente é de que, com ou sem o reajuste, o governo já é associado por seus adversários a uma política de menor preocupação com o equilíbrio fiscal.
Atualmente, mais de 19 milhões de famílias recebem o Bolsa Família. A medida alcança quase 50 milhões de pessoas, aproximadamente um quarto da população brasileira.
Economia entra no centro da disputa
As pesquisas mais recentes apontam insatisfação do eleitorado com a situação econômica, apesar de indicadores considerados positivos, como a baixa inflação e a baixa taxa de desemprego.
O entorno de Lula avalia que o reajuste pode ajudar a alterar a pauta do debate público e levar a discussão eleitoral para o impacto direto da política social sobre milhões de famílias.
Campanha de Flávio Bolsonaro evita confronto com a medida
A estratégia também coloca a campanha de Flávio Bolsonaro diante de uma situação delicada, segundo a avaliação dos articuladores de Lula: uma eventual crítica ou ação contra o reajuste poderia gerar reação negativa entre os beneficiários.
Desde o início do dia, a coordenação da campanha de Flávio Bolsonaro vinha descartando uma atuação contra uma medida que beneficia um número expressivo de pessoas.
O senador Rogério Marinho (PL-RN), coordenador da campanha, afirmou que o governo não estaria preocupado com as consequências futuras da medida e classificou a política fiscal do governo como irresponsável. Segundo ele, a campanha pretende abordar o tema e relacioná-lo aos juros elevados.
Deputado aciona TSE contra reajuste
Apesar da posição da coordenação da campanha, o deputado Zé Trovão (PL-SC) acionou o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) contra o reajuste do Bolsa Família.
A ação foi posteriormente extinta pelo ministro André Mendonça, sob o entendimento de que Trovão não tinha legitimidade para propor esse tipo de processo.
A iniciativa foi considerada uma ação individual do parlamentar, mas acabou criando um novo elemento para a campanha de Flávio Bolsonaro.
PT tenta alterar o tom da campanha
Nos últimos dias, a campanha de Lula passou a buscar uma mudança no tom da pauta eleitoral.
Articuladores do PT, descontentes com o espaço que Flávio Bolsonaro passou a ocupar no debate público durante a crise no Supremo, começaram a resgatar episódios controversos do governo de Jair Bolsonaro.
O partido também voltou a fazer críticas ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, após novas manifestações relacionadas ao Brasil e ao combate ao tráfico de drogas.





