Comércio varejista perdeu postos de trabalho enquanto o mercado brasileiro criou 921 mil empregos formais; juros altos, endividamento e avanço do comércio eletrônico estão entre os fatores apontados
O comércio varejista brasileiro fechou 45,9 mil postos de trabalho com carteira assinada no primeiro semestre de 2026, segundo dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged).
Esse foi o pior resultado para o período desde 2020. Na direção oposta, o mercado de trabalho brasileiro registrou a criação de 921 mil empregos líquidos nos seis primeiros meses do ano.
Especialistas apontam uma combinação de fatores para o desempenho negativo do varejo, entre eles os juros elevados, a desaceleração da economia, o endividamento das famílias, o crescimento das apostas online e a migração dos consumidores para o comércio eletrônico.
Comércio foi o único grande setor a eliminar vagas
Considerando os grandes setores da economia, o comércio foi o único a registrar saldo negativo no primeiro semestre, com 3,5 mil vagas eliminadas.
No mesmo período, os serviços criaram 571,9 mil empregos, a construção abriu 168,9 mil postos, a indústria gerou 143,4 mil vagas e a agropecuária teve saldo positivo de 40,8 mil empregos.
O comércio varejista, que representa 68% do estoque de empregos do comércio, criou vagas apenas nos meses de março, maio e junho. No primeiro semestre de 2025, o setor havia registrado a criação de 23,7 mil postos.
Vestuário lidera cortes
Entre os segmentos do varejo, as lojas de artigos de vestuário e acessórios registraram o maior número de cortes.
Foram 30,9 mil vagas fechadas nos primeiros seis meses de 2026, o equivalente a mais de dois terços do saldo negativo do setor.
Na sequência aparecem as lojas de calçados, com 11,3 mil postos eliminados, e os supermercados e hipermercados, que fecharam 5,6 mil vagas.
Esses segmentos também enfrentam o avanço da concorrência do comércio eletrônico.
Juros altos pressionam consumo
A alta dos juros é apontada como um dos fatores que dificultam a recuperação do varejo, principalmente nos setores que dependem de compras parceladas.
A taxa de juros para pessoas físicas com recursos livres chegou a 64% ao ano em junho, contra 59,4% no mesmo mês de 2025.
No cartão de crédito, a taxa alcançou 97,4% ao ano, ante 92,1% um ano antes.
O cenário afeta principalmente a venda de bens duráveis, como móveis e eletroeletrônicos, que dependem do financiamento ao consumidor.
Apostas online também afetam consumo
Outro fator apontado por especialistas é o crescimento das apostas online, que pode reduzir a renda disponível para outras despesas.
Um levantamento citado no estudo mostra que cerca de 23% dos apostadores reduziram gastos com roupas e calçados para direcionar dinheiro às apostas. Outros 19% reduziram despesas em supermercados.
O impacto ocorre em um cenário de endividamento elevado das famílias. Segundo dados do Banco Central, o comprometimento da renda com dívidas está em 49,8%, limitando a capacidade de novos compromissos financeiros.
Comércio eletrônico muda mercado de trabalho
Além das dificuldades econômicas, especialistas apontam uma mudança estrutural no setor: a migração dos consumidores para o comércio eletrônico.
Grandes plataformas digitais conseguem operar com estruturas diferentes das lojas físicas e, em muitos casos, empregam menos trabalhadores diretamente no varejo.
Parte dessas vagas, porém, acaba sendo deslocada para áreas como armazenamento, logística, transporte, controle de estoque e serviços relacionados às vendas online.
Casas Bahia pode ampliar impacto no emprego
O mercado de trabalho do varejo ainda poderá sentir os efeitos da crise enfrentada pelas Casas Bahia.
A empresa pediu recuperação judicial e anunciou o fechamento de 298 lojas, além da demissão de aproximadamente 3 mil funcionários.
Com tradicionalmente mais contratações no segundo semestre, a expectativa é de que o comércio encerre 2026 com um saldo líquido de empregos formais próximo de zero.





